Sabrina Noivas 63 - The Rainbow Bride

O vestido no era branco! Imagine uma cidade do Velho Oeste, onde as costureiras se negassem a fazer um vestido de noiva branco para a danarina de saloon que ia se casar... Esta era uma afronta que ris teria de vencer... de qualquer maneira! Adam Freemont era fiel aos velhos cdigos do Oeste. E por isso estava disposto a proteger e ajudar ris Merlin! E mesmo que o vestido no fosse branco, no interessava. Ele queria ris!

Digitalizao e Correo: Nina

Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1997
Publicao original: 1997
Gnero: Romance histrico contemporneo
 Estado da Obra: Corrigida

CAPITULO I

	Procuro por Adam Freemont. Ele est? Os homens no interior do bar voltaram-se para a porta por onde ris acabara de entrar.
O sol da manh brilhava, fazendo com que sua sombra se alongasse no gasto piso de madeira.
"Tudo o que preciso  de um chapu Stetson branco e de um rifle, em vez dessa bengala de bambu", ela pensou, ignorando os olhares que a examinavam de cima a baixo. "Assim, esta cena se encaixaria perfeitamente num filme de faroeste classe B."
	Ele no est aqui, madame.  Uma voz masculina, um tanto rouca, soou no meio do grupo.
ris avanou alguns passos pelo salo. Algumas aspirinas e uma longa noite de sono a haviam ajudado a vencer a dor no tornozelo esquerdo, que estava luxado. Mas ris, apesar de j sentir-se bem melhor, no conseguia mover-se sem o auxlio da bengala.
	Acho que vou esperar por Adam Freemont  anunciou e acrescentou em seguida:  Meu nome  ris Merlin.
J estava acostumada  reao adversa das pessoas de Felicity, quando se apresentava.  espanto, a dvida, o riso em alguns casos...
Mas ali, no Saloon Aperto de Mos, os homens voltaram os olhares para o quadro que pendia acima do balco, onde uma mulher vestida de noiva sorria com evidente ironia, bela e desafiante. Era A Noiva do Arco-ris.
A pintura, na verdade um mural, era muito antiga e incrivelmente bem conservada. O ar seco do deserto no conseguira danificar as cores vivas, os traos precisos daquela relquia que j fazia parte da histria do lugar. Nela, ris Merlin, bisav da mulher que tinha o mesmo nome, posava em seu extico vestido de noiva, composto com todas as cores do arco-ris.
Segundo a lenda, as costureiras do vilarejo de Rainbow haviam se recusado a fazer um vestido branco, a cor da pureza, para a cantora de saloon que desfilava seminua, todas as noites, entre as mesas repletas de fregueses.
O fato de ela se casar com o mais rico e prspero comprador de ouro e prata do Estado de Nevada, acirrara ainda mais a inveja e o preconceito.
ris, porm, no se deixara abater. As famlias mais influentes da cidade no a achavam digna de vestir-se de branco em seu casamento? Pois ento seu vestido de noiva seria de cor... Mas no azul ou amarelo e sim de todas as cores do arco-ris! A seda importada da Frana, assim como os vus finssimos, compuseram um modelo tradicional fascinante, onde a nica cor ausente era o branco... Mas, afinal, o branco era o resultado da mistura de todas as cores. E, assim, ris Merlin dera sua resposta  cidade.
Em torno do pescoo alvo e delicado, usava uma jia de artesanato, feita sob encomenda para a ocasio por um conceituado joalheiro de Londres. Mais de uma centena de pequenas pedras preciosas tinham sido incrustadas na gargantilha de ouro e prata, formando um arco-ris cintilante, de beleza extraordinria. As pedras eram topzios, rubis e ametistas.
	Meu nome  George Earley  disse um dos homens avanando ao encontro de ris  Adam nos contou que a senhorita  neta...
	Bisneta  ela o corrigiu.
	Isso. A bisneta de ris Merlin... Aquela ali.  Ele apontou o quatro.  A senhorita at se parece ligeiramente com ela, exceto por...  George no completou a frase. Apenas sorriu.
	Minha profisso  diferente  ela afirmou, num tom srio.  No sou cantora como minha bisav e sim bibliotecria, em Minneapolis.
Os homens entreolharam-se e sorriram, mas nada disseram. 
	Adam nos contou que a senhorita apareceria hoje, por aqui  George continuou.
	Verdade? E ele lhes disse o motivo pelo qual vim?
	Sim. Parece que a senhorita quer parar os trabalhos da mina Rainbow para procurar alguma coisa que pertenceu a sua bisav.
	 isso  loucura  um homem comentou, num tom spero.
Um burburinho hostil ergueu-se no salo. E ris sentiu a rejeio como uma barreira fsica, diante de si.
	Vim para mostrar algo a vocs, mas s o farei na presena de Adam Freemont.
	Ento ter de esperar, madame  disse outro homem, com uma expresso sarcstica.
	 o que pretendo  E ela sentou-se numa cadeira, co locando a bengala no colo.
Uma cena ocorrida no dia anterior, numa mina em Rainbow, voltou  mente de ris. Ela havia acabado de chegar de Tono-pah, cheia de expectativa e esperana.
Rainbow era uma cidade-fantasma, construda s pressas e sem nenhum cuidado estrutural, como quase todas as vilas de garimpo da poca. O tempo e o abandono a haviam transformado em runas.
Mesmo com um mapa nas mos, ris mal havia conseguido distinguir a rua principal de Rainbow das outras. Por fim, chegara  mina.
Pisando com cuidado o tablado apodrecido de um pequeno saguo, ela havia deparado com um homem que a fitava com curiosidade.
Nada havia de agressivo nele, a no ser a falta de um sorriso, ou sinal de reconhecimento humano. Era alto, magro, tinha um rosto de traos fortes e olhos azuis-cinzentos, que se fixavam nela como se a transpassassem. Queimado de sol e usando jeans, o homem parecia fazer parte do cenrio agreste e da spera natureza em torno.
ris preparava-se para cumpriment-lo, quando um lobo surgira ao lado do homem. O pavor, que sentia desde a infncia com relao a cachorros, a fizera recuar. Instintivamente, o animal avanara.
Sem pensar, ris havia comeado a correr, ouvindo as pisadas leves do lobo atrs de si. Ele ia alcan-la numa questo de segundos, ela pensava, apavorada. E ento ouvira a voz do homem soando, grave e ntida, no silncio do deserto.
 Kima... No.
A pequena bolsa que ris trazia a tiracolo continha biscoitos, uma garrafa de gua e um telefone celular. Assustada, ela havia atirado tudo isso contra o animal, em movimentos desconexos e apavorados. Em seguida voltara a correr, olhando para trs a todo momento. Seu p esquerdo afundara-se num buraco e ela cara com um grito.
"Estou perdida"..., esse tinha sido nico pensamento, no instante da queda.
Mas, ao contrrio do que ris esperava, o animal havia se detido a poucos passos dela, olhando-a com curiosa calma. Enquanto isso, o homem se aproximava.
	Voc cometeu um erro, ao correr de Kima. Ela  muito jovem, apesar do tamanho, e pensou que voc quisesse brincar.
E ento, como se sente?
	O lobo!  ris havia gritado, no auge do pavor.  Mantenha-o longe de mim!
	Kima  uma husky-cross e no um lobo. Posso garantir que est mais assustada que voc. Ela nunca passou por essa experincia, antes.
ris havia notado, surpresa, que o homem sorria levemente. Por um momento, apesar do pnico que ameaava domin-la, ela pensara no quanto aquele sorriso era belo. Mas ento a dor causada pelo tornozelo torcido assaltou-a, fazendo-a gemer profundamente.
	Acho que quebrei o p... Oh, meu Deus.
O homem inclinara-se para examinar o local afetado, mas sem toc-lo.
	No  havia sentenciado, ao fim de alguns instantes.
	Voc no quebrou o p. Tenho um bocado de experincia no assunto, para saber a diferena entre uma fratura e uma luxao. Quer que a ajude?
	Sim, pegue o meu celular. Tenho de ligar para Tonopah e pedir auxlio.
Assentindo com um gesto de cabea, o homem obedecera. Com movimentos lentos, alcanara o aparelho que estava no cho.
	No creio que isso seja de grande ajuda, neste momento 	comentara.
Recebendo das mos do estranho o telefone empoeirado, dividido em duas partes distintas, ainda presas uma a outra por um fio, ris havia entendido o que ele quisera dizer.
	Mais essa, agora!  exclamara, com desgosto.
	Meu nome  Adam Freemont  o homem se apresentara, num tom decidido.  Parece que ter de aceitar minha
ajuda, moa.
Abaixando-se ao lado de ris, comeara a desamarrar-lhe o cordo da bota.
Ela ento contrara-se o mais que podia, no pela proximidade do homem, e sim pelo seu nome. Pois ris sabia quem era Adam Freemont. E sempre o detestara, embora jamais o tivesse visto, antes.
Justamente naquele momento, Adam retirava a bota do p esquerdo de ris. A dor voltava, numa pontada brusca, levando ris a reagir impulsivamente, empurrando o homem para longe.
Com os punhos cerrados, ela o acertara na boca e no rosto, fazendo-o recuar para trs, em frgil equilbrio.
A cachorra Kima, que permanecia sentada observando a cena com muita calma, erguera-se de sbito, com o pelo eriado ao redor do pescoo e os dentes  mostra. Agora, a situao no era uma brincadeira... Seu dono havia sido agredido.
	Sente, Kima  Adam havia ordenado, levando a mo  boca.
Um filete de sangue escorria-lhe pelo queixo e ele o enxugara com a manga da camisa. O animal voltara  posio anterior mas continuava alerta, com as orelhas erguidas, os olhos faiscando.
	Por que fez isto?  Adam perguntara, num tom surpreendentemente calmo.
	Eu no queria...  ris havia respondido, envergonhada.  Apenas obedeci a um impulso. Desculpe-me...
	Est bem. Mas procure manter o controle. Seno, terei de amarr-la com meu cinturo.
ris procurara, nos olhos azuis-acinzentados, um sinal de que Adam Freemont estivesse apenas gracejando. Mas ele a fitava de um modo que no deixava dvidas: estava realmente falando srio.
	Como voc se chama e o que faz por aqui, moa?  Adam havia perguntado, por fim.
	Sou ris Merlin e vim fazer uma pesquisa.
A surpresa havia paralisado Adam por um segundo... Mas logo ele reassumira o controle, voltando a tratar do p esquerdo de ris.
	Voc disse que ... ris Merlin?
	Sim.
	Impossvel  sentenciara, aps um breve silncio.  A no ser que voc seja uma artista, que adotou o nome dela por pura fantasia profissional.  Com o cenho franzido, indagara:  Voc sabe quem foi ris Merlin, realmente?
	Claro. Mas no sou danarina e cantora, como a primeira ris, minha bisav. Trabalho numa biblioteca em Minneapolis.
O espanto havia deixado Adam mudo temporariamente. ris aproveitara a oportunidade para esclarecer:
	Minha bisav era muito moa, quando chegou a essa regio. Trabalhou como garonete em Carson City e Tonopah, at que resolveu tentar a sorte como cantora e bailarina. Fez sucesso e acabou se casando com o homem mais rico da regio, Wynne Rowland. Por ocasio da cerimonia, ganhou um apelido que a tornou clebre: A Noiva do Arco-ris.
	Vejo que voc est bem informada.
	Bastante. At mesmo sobre voc, Adam Freemont, que andou espalhando mentiras sobre minha bisav. 
	Do que voc est falando?
	De Donald Fontenot, o historiador.
	O nome no me  estranho. Mas o que tem esse tal de Donald a ver com...
	Voc disse a ele que minha bisav abandonou a cidade, levando uma fortuna consigo durante a epidemia de clera  ela apartara.  E isso  uma mentira deslavada.
Adam havia reagido com uma expresso pensativa, levando a mo ao queixo e franzindo a testa. Lembrava-se vagamente de uma tarde em Felicity, quando um velho e distinto senhor o abordara com vrias perguntas sobre a histria da cidade e das minas de Rainbow.
	De fato... Agora me lembro de Donald Fontenot. Mas o que falei sobre sua bisav  voz corrente em toda a regio. Ouvi a histria desde menino e apenas repeti o que sabia.
	O que no sabia... se me permite corrigi-lo.  A voz de ris estava trmula de emoo.
	E como ficou sabendo da entrevista?
	Donald citou seu depoimento como prova, numa matria publicada pela revista Times. Seu nome estava l, com todas as letras e o resto das mentiras.
Cruzando os braos, os olhos azuis-acinzentados estreitando-se numa expresso de ira, Adam afirmara:
	Eu no vou ficar aqui parado, ouvindo desaforos de uma estranha, s porque repeti uma histria to antiga que j  folclore na regio. Queira fazer o favor de se comportar com mais civilidade, sim?
Um riso nervoso havia sacudido ris, que continuava sentada no cho, com o p esquerdo descalo, tendo ainda nas mos o celular estragado.
	Qual  a graa?  Adam indagara, um tanto confuso.
	Voc... Numa cidade fantasma ao lado de uma mina abandonada, em pleno deserto, vestido como um ator de filmes de faroeste, em companhia de um lobo e falando de civilidade!  ou no  engraado?
Um sorriso insinuara-se nos lbios de Adam. Uma vez mais ris constatara o quanto aquele sorriso era belo e capaz de fascin-la. Por uma frao de segundo, tudo parecia fazer sentido... At mesmo seu p dolorido, a poeira e a desolao em torno.
Mas o momento de encanto havia durado pouco. Pois j Adam Freemont voltava a sua postura normal de homem srio e duro, como a natureza que o cercava.
	No chame Kima de lobo  recomendara, aps um breve silncio.  Fica inadequado, sabe?
	Sim  ris concordara, lanando um rpido olhar ao animal.  Ela  uma husky-cross, fmea e ainda jovem... Certo?
	Exato. Voltando ao assunto desse tal Donald Fontenot... Que importncia tem o que ele diz ou escreve, afinal?
	Muita. Donald Fontenot est prestes a publicar um livro, no qual afirma, textualmente, que minha bisav era uma oportunista esperta, que amealhou uma fortuna por aqui e fugiu quando a situao ficou ruim.
	Para a maioria das pessoas sua bisav apenas agiu como devia, salvando a prpria pele.
	Supondo-se que ela realmente houvesse feito isso. Voc acharia sua atitude correta?
	No.
	Nem eu. Portanto, no vou descansar enquanto no provar que Donald Fontenot est errado... Que alis todos esto errados por rotularem minha bisav como uma covarde oportunista. E pretendo fazer isso antes que o livro seja publicado, com aquele monte de mentiras.
	Posso fazer uma pergunta?
	Sim.
	Qual  sua verso sobre ris Merlin, a danarina e cantora de saloon? Gostaria tambm de saber como voc ficou sabendo da histria.
	Bem... ris conseguiu tirar sua filha de Rainbow, antes que fosse contaminada pelo clera. Uma famlia de Carson City adotou-a e levou-a para a Califrnia, onde cresceu e se casou. A menina chamava-se Emily e viria a se tornar minha av. Ela contava a histria de ris Merlin para a filha, Shanna, como se quisesse marcar cada palavra em sua memria. E dizia que o relato deveria ser transmitido de gerao a gerao.
	E Shanna veio a ser sua me?
	Sim.
	E ela lhe contou a histria?
	Exato. A mesma que tinha ouvido de Emily, minha av.
	E voc acha que aquela era a verso correta?
Num tom veemente, Iria havia afirmado:
	Sei a verdade sobre a primeira ris Merlin, como sei que este sol nos ilumina, agora. Ela era uma mulher maravilhosa, forte e decidida. Jamais abandonaria os seus amigos num momento de pnico ou de desespero.
	Ento, segundo a verso que lhe foi transmitida, sua bisav ficou em Rainbow at o fim.
	At morrer, cuidando das pessoas, ajudando a minorar seu sofrimento e medo.
O silncio caa de novo entre ambos. ris estava emocionada e, para sua surpresa, Adam parecia compartilhar daquele sentimento.
	Se sua verso  a correta, ento seria uma grande injustia deixar que sua bisav passasse para a histria como uma mulher sem car ter  ele havia comentado, por fim.
	Quer dizer que voc entende minha posio?
	Lgico. Mas agora preciso lev-la a um mdico. Se no cuidar desse tornozelo, voc ter de ficar imobilizada por um longo tempo.
	Meu carro est estacionado a uns cem metros daqui. Ajude-me a chegar at l, por favor. Depois, cuidarei de mim mesma.
	Sei!  Adam meneava a cabea, com ar incrdulo.  E como pretende trocar as marchas do carro, com o p esquerdo neste estado?
	Quero tentar  ela insistia.
Estendendo ambas as mos para ris, ele a ajudara a levantar-se do solo empoeirado. Mas tivera de ampar-la, para que no casse.
	Voc tem razo  ris acabara cedendo.  No consigo apoiar-me sobre o p esquerdo.
	Ou seja: no pode dirigir. Tenho um jipe antigo, prprio para andar nesse deserto. Ele est estacionado atrs daquelas runas, que um dia foram o saloon de Rainbow. Trata-se de um veculo duro e pesado, mas capaz de nos levar at Tonopah, com toda a certeza.
Antes que ris pudesse protestar, Adam a erguera nos braos e caminhara a passos largos em direo ao jipe. Kima os seguiu, saltitante.
O contato do corpo musculoso e viril contra o seu fazia com que ris estremecesse. Adam era muito forte, apesar de esguio, ela constatara. Dele se desprendia um aroma que ris no conseguia identificar ao certo, algo entre alfazema e madeira. Tensa e surpresa, ela captava toda a energia viril que emanava daquele homem. Adam parecia uma fonte de calor e mistrio que a confundia, causando-lhe uma sensao de vertigem.
	C estamos  ele anunciara, interrompendo-lhe as divagaes.  Esta  Esmeralda... E esta  ris. Pronto! J esto devidamente apresentadas.
	Esmeralda?  ris havia repetido, com um meio-sorriso.
	Sim. Veja a cor.
De fato o velho jipe fora pintado com uma tinta verde, quase fosforescente. Com suas rodas possantes, sua estrutura slida, Esmeralda era uma mquina adaptada s necessidades da regio, com seus cabos de ao, rotores frontais, teto de lona, depsito de gua potvel, ferramentas mltiplas... E tudo muito bem cuidado, rstico e limpo.
Adam, por sua vez, perdia-se em outro tipo de contemplao: a da mulher em seus braos. Pequena, quase frgil... E bela! Absolutamente bela. A natureza generosa dera-lhe as curvas certas, as propores exatas. Os cabelos cor de mel, anelados e longos, oscilavam  brisa do deserto. Tomado por uma onda de ternura, Adam comparava-os a uma cascata dourada, tocando-lhe o rosto queimado pelo sol e causando-lhe uma sensao de prazer.
Aquela mulher cheirava a flores silvestres, ele constatava, tomado por um misto de alegria e ansiedade. Ela parecia fresca e tenra como as ptalas de uma rosa abrindo-se ao sol. E aqueles olhos azuis profundos que lembravam o cu da primavera, a pele macia e de textura suave, como um pssego maduro.
O corao de Adam pulsava to forte que ele sentira medo de ser denunciado, em suas emoes mais profundas. Era um homem experiente e conhecia o amor. Mas nunca, em toda a sua vida, estivera to prximo de sua imagem de mulher ideal. Mas como podia sentir-se assim diante de uma desconhecida, que acabava de cruzar seu caminho de um modo absolutamente inesperado?
Afastando da mente aquele pensamento incmodo, Adam recomendara:
	Coloque seu brao esquerdo no assento.
	Assim?
	Isso.  Ele a depositara no banco de passageiros, tomado de uma sensao de perda. Contornando o jipe, acomodara-se ao volante. Depois, voltara-se na direo da cachorra. Vamos, Kima.
Num salto gracioso, o animal acomodara-se na parte traseira do veculo, encostando o focinho mido no ombro de ris, que estremecera de horror.
	Logo estaremos em Tonopah  dissera Adam, ao dar a partida. E aconselhara em seguida:  Procure relaxar, para no sentir dor.
Mas ris encontrava-se num mundo muito particular, tentando olhar a paisagem com os olhos da primeira ris, cantora e danarina, que vivera no sculo anterior. Dando asas  imaginao, tentava vislumbrar como seria aquela regio no tempo da bisav, quando a populao era grande... Quando o ouro e prata proliferavam nas minas, como peixes num lago, em pleno vero.
	O que voc faz para viver?  ela perguntara, ao final de um longo momento.
	Vivo.  Fora a resposta inesperada e simples de Adam.
ris o fitara com ar confuso. Ele ento afirmara:
	Detesto essa pergunta e tudo o que nela est includo.
Parece que cada um tem de se matar, num emprego do qual no gosta, s para ser reconhecido entre os seres humanos como um homem de bem, um homem trabalhador. Esse jeito de pensar  uma grande tolice, sabe? Posso fazer qualquer coisa, em qualquer lugar e a qualquer hora... E isto no vai me definir como ser humano, entende?
	No apenas entendo, como tambm concordo. E por isso pergunto de novo: quem voc , o que pretende da vida?
	Sou um homem  moda antiga, no no que se refere aos preconceitos, mas ao modo de sonhar.
	Como assim, Adam?
	Nasci e passei uma parte de minha infncia em Felicity. Agora voltei, para no deix-la transformar-se numa cidade fantasma... Como aconteceu com Rainbow.
	E como pretende fazer isto?
	Usando os mtodos modernos para extrao do ouro e da prata. Vou trabalhar nos veios da antiga mina, considerados esgotados h muito tempo.
	Parece um projeto difcil  ela comentara, pensativa.  At onde o desenvolveu?
	O primeiro passo foi legalizar os impostos sobre essas terras  ele respondera, com um gesto abrangente.  Elas me pertencem por herana. Meu bisav as possua, no tempo da primeira ris. O segundo passo foi conseguir a adeso dos moradores de Felicity para o desenvolvimento do projeto. Em outras palavras, formamos uma empresa nos moldes mais modernos que voc possa imaginar.
	E qual  o objetivo dessa empresa?
	Atrair o interesse dos grandes investidores, ora. Estamos justamente nesta fase. Comeando as prospeces em quatro reas. E Rainbow  nossa grande esperana.
	Quer dizer que vo furar o cho e pisotear toda a histria antiga da cidade, com enormes mquinas e aparelhagens?  ris perguntara, arregalando os olhos azuis-turquesa.   isso?
	Pode-se dizer assim. Qual  o problema?
	Vocs vo destruir minha possibilidade de conseguir as provas de que necessito para inocentar minha bisav... Para livr-la da acusao de covardia e oportunismo que paira sobre ela.
	Se eu pudesse, evitaria. Mas no se trata apenas de mim. Os moradores de Felicity, que agora so meus scios no projeto, esto vivendo num clima de expectativa. E no posso decepcion-los.
	Preciso de tempo  ela dissera, como que para si.
Quanto tempo, ris Merlin? Esta  a questo.

CAPITULO II

Quarenta minutos haviam se passado, desde que ris entrara no Saloon Aperto de Mos. Um clima de renso pairava sobre as pessoas ali reunidas, quando finalmente Adam Freemont chegou. Lanando um cumprimento geral, ele aproximou-se e saudou ris:
	Bom dia.
	Bom dia, Adam.
	Desculpe-me pelo atraso. Voc est melhor?
	Sinto-me bem, graas a Deus.  Pensei que voc no viesse mais.
	Tive uns contratempos mas, como v, aqui estou.  Com um gesto largo, que parecia abranger todos os presentes, ele indagou elevando a voz:  O que voc queria nos mostrar?
ris pressionou os lbios um contra o outro, numa clara demonstrao de nervosismo. Mas havia qualquer coisa de infantil naquele gesto, que lembrava o de uma criana diante de um problema escolar difcil de resolver. Seus cabelos anelados possuam um brilho especial, que contrastava com a pele sedosa e alva.
Os olhos de Adam fixavam-se em ris, como que hipnotizados. Aquela mulher era linda, ele constatou uma vez mais, tal como fizera no dia anterior. "Mas parece totalmente deslocada neste saloon aqui em Felicity, entre homens rudes, acostumados  spera vida do deserto, pensou.
A pequena bolsa que no dia anterior guardava biscoitos, uma garrafa de gua mineral e o telefone celular, ainda pendia do ombro direito de ris. Depositando-a sobre a mesa, ris abriu-a cuidadosamente. Com gestos calmos, que nada tinham a ver com seu estado de esprito, retirou um pequeno embrulho e colocou-o ao lado da bolsa.
Havia um toque teatral naquela cena, Adam notou, contendo um sorriso. E esse toque estava surtindo efeito.
Os homens se aproximaram devagar, observando atentamente os movimentos lentos e seguros com que ris desmanchava o invlucro.
Uma sufocada exclamao de espanto correu entre os homens, quando ris finalmente terminou de desfazer o pacote. Trs pequenas pedras brilharam  luz difusa do interior do saloon: um rubi, um topzio e uma ametista.
	Se vocs quiserem comparar, vero que estas pedras so idnticas quelas que enfeitam a gargantilha de minha bisav, no quadro que a retrata vestida de noiva  ris afirmou, num tom pausado.
Adam foi o primeiro a se recuperar da surpresa. Tomando o topzio na mo, caminhou na direo do balco e aproximou-o da tela onde a primeira ris sorria, com um ar de ironia e desafio.
	Parece mesmo igual aos outros topzios aqui retratados 	constatou, com uma expresso de espanto.  Onde voc o conseguiu?
	Simples... - Disse o mais agressivo dos homens, num tom carregado de maldade.  Quando ris fugiu dessa regio, levou a gargantilha e toda a fortuna do marido para a Califrnia.
	Errado  ris discordou, num tom sereno, que em nada denunciava sua tenso.  E exatamente a que comea todo o engano.
	Conte sua verso dos fatos  Adam props, com firmeza.
	Afinal, voc tem esse direito.
Recostando-se na cadeira, ris elevou o rosto em direo ao quadro na parede. Uma onda de intensa emoo a invadiu. Mas sua voz soou clara, sem nenhum trao de temor, ao dizer:
	A situao era de calamidade pblica. Ningum tinha permisso para sair de Felicity ou de Rainbow, que estavam sitiadas. Homens armados vigiavam dia e noite as estradas de acesso. A comida comeava a faltar, no existia mais medicamentos. Mas um velho paj ndio tinha livre acesso s comunidades infectadas pelo clera. Com seus remdios feitos de razes e folhas, ele ajudava muita gente a suportar melhor o infortnio. Algumas pessoas caridosas de Carson City conseguiram fazer chegar ao velho ndio algumas doaes, tais como roupas, alimentos e alguns remdios de farmcia, que ele distribua da melhor forma que podia. Mas nem todos em Carson City estavam interessados apenas em ajudar a populao de Felicity e Rainbow. Alguns comerciantes inescrupu-losos comearam a enviar seus produtos para as cidades infectadas, atravs do velho ndio. Por esses produtos, eles exigiam preos absurdos. Criava-se, assim, uma espcie de cmbio negro, com vrios oportunistas de Carson City enriquecendo com a tragdia da populao desesperada, ris fez uma pausa e de sbito indagou:
	Quem era a pessoa mais rica de Rainbow?
	Wynne Rowland e sua esposa ris Merlin,  claro  George Earley respondeu.
	Pois foi atravs daquele ndio que minha bisav gastou toda a fortuna acumulada pelo marido, ao longo dos anos. Trocava ouro por trigo, pedras preciosas por acar e prata por remdios. Com uma coragem e dedicao espantosas, ela zelou pelos doentes da comunidade at o limite de suas foras.
	Dito dessa maneira, a ris aventureira que danava quase nua neste salo fica parecendo uma santa  disse o homem agressivo, num tom de displicncia.
	Qual  o seu nome, senhor?  ris perguntou, fitando-o no fundo dos olhos.
	Tony Killian, moa.

	Pois muito bem, sr. Killian... Minha bisav realmente pode ser classificada como uma aventureira. Cantava, danava e divertia os homens, por dinheiro. S que no era mesquinha, covarde ou hipcrita, como a histria quer colocar.
	Continue sua verso dos fatos, ris  Adam pediu. Voltando-se para Tony Killian, recomendou:  Quanto a voc, queira ficar quieto, por favor.
	Tudo bem. Adam Freemont  o outro assentiu, irnico.  Voc sempre adorou ouvir historinhas, desde que era menino.
Todos riram, divertidos, inclusive o prprio Adam. Ento ris retomou a narrativa:
	Foi tambm com a ajuda do velho ndio que minha bisav conseguiu retirar de Rainbow sua nica filha, Emily. E enviou-a a Carson City, para a casa de uma famlia, que encarregou-se de cuidar dela.
Adam depositou o topzio de volta sobre a mesa, ao lado do rubi e da ametista. ris reparou na mo longa, de dedos esguios, pensando que Adam, de fato, era um belo homem.
	E ento?  ele indagou, fixando os olhos azuis-acinzentados nos dela.  O que aconteceu?
ris tomou flego para prosseguir:
	Ao despedir-se da filha, ela destacou com grande dificuldade essas trs pedras que estavam engastadas na gargantilha, colocando-as numa pequenina bolsa de couro, que prendeu em torno do pescoo da criana, dizendo: "Quando tudo isto teminar, volte aqui e recoloque as pedras no lugar onde estavam." Depois beijou a filha e ficou  beira da estrada, vendo-a de saparecer na noite em companhia do ndio.
	E por que no deu  filha a gargantilha inteira?  indagou Tony Killian, o homem mais agressivo do grupo.
	Essa  fcil  disse George Earley.
	Ento responda, amigo  Tony Killian exigiu.
	Manter trs pedras escondidas num saquinho de couro  uma coisa. Quanto a fazer isso com uma centena delas... J fica bem mais difcil.
	Seria como condenar a menina  morte, com tantos bandidos rapinando na regio  Adam concluiu.
	Fosse qual fosse o motivo, foi assim que tudo aconteceu  ris continuou.  O fato  que Emily, minha av, chegou a Carson City e foi entregue quela famlia que j mencionei. Essa famlia no tardou a mudar-se para a Califrnia, onde Emily cresceu, casou-se e teve por sua vez uma filha chamada Shanna, que veio a ser minha me.  Aps uma pausa, concluiu:  As pedras e a histria vm acompanhando minha famlia por trs geraes. Elas so a prova viva de que ris Merlin no abandonou seu marido, nem o povo da regio. Ao contrrio: esteve com eles at o fim.
	E voc acha que tem a mnima chance de encontrar a gargantilha, depois de todos esses anos?  Tony Killian interpelou-a, com desdm.
	 o que eu espero. Mas para isso preciso de tempo... antes que comecem as prospeces em Rainbow.
	Como est Rainbow, em nossos planos de trabalho?  perguntou um dos homens.
	Rainbow foi designada como rea nmero quatro  George Earley esclareceu. Voltando-se para Adam, perguntou: Quando devero se iniciar as prospeces, por l?
	Assim que terminarmos o trabalho na rea trs  Adam respondeu.  Isso dever acontecer dentro de trs ou quatro semanas, no mximo.
	 muito pouco tempo  ris exclamou, aflita.
	Escute aqui, mocinha...  Tony Killian interveio.  Estamos preocupados em salvar Felicity da runa total. No temos comrcio ou indstria por aqui. Tudo o que possumos so as velhas minas, que ainda podem nos salvar. Alm do mais, todas as terras em torno de Rainbow pertencem a Adam. Se voc entrar l sem permisso, estar invadindo uma propriedade particular e...
	Este assunto  comigo, meu caro  Adam apartou. Virando-se para ris, afirmou:  Voc tem meu respeito e sim
patia, ris Merlin. E creio que a maioria das pessoas aqui presentes pensam da mesma forma.
Os homens concordaram, ainda hesitantes, excetuando-se dois ou trs, que permaneceram calados. Adam prosseguiu:
	Se eu estivesse em seu lugar, faria exatamente o mesmo que voc. Mas acontece que tenho responsabilidades, no apenas com relao ao meu trabalho, mas com todos esses homens e suas famlias. Eles investiram o pouco que possuam para tentar salvar a cidade. E, em s conscincia, no posso permitir que sejam prejudicados.
	Mas no quero causar prejuzo a ningum  ela protestou.  Estou apenas lhe pedindo mais tempo para tentar provar minha verso da histria.
	Trs semanas, ris  Adam sentenciou.  E tudo o que voc tem.
	Voc disse quatro  ela retrucou,  beira do desespero.
	Trs ou quatro semanas, eu no sei ao certo. O fato  que quando terminarmos as prospeces na rea trs, comearemos a trabalhar em Rainbow. E ento voc dever sair de l, entendeu?
	Mas eu...
	Voc no tem escolha  Adam afirmou.  Ou aceita o que lhe estou oferecendo, ou desiste da ideia.
	Desistir, nunca!  ris retrucou, com veemncia.  Se fizer isso, jamais conseguirei provar que minha bisav era uma mulher de carter.
Houve uma troca de olhares entre os homens, no saloon. Apesar de rudes, eles sabiam apreciar a bravura e a determinao que agora ris demonstrava.
	Pois muito bem  disse Adam.  J que vai ficar, quero que me d sua palavra de que sair de Rainbow quando as mquinas chegarem para o trabalho de prospeco.
Todos os olhares convergiram para a bela e frgil mulher sentada  mesa, com os lbios contrados e uma expresso tensa nos olhos azuis.
	Est bem  ela aquiesceu, ao final de alguns momentos.
	Eu prometo.
	Aqui em Felicity, ns ainda acreditamos no valor da palavra. Acabamos de receber a sua, como se fosse uma assinatura num documento  Adam afirmou. Voltando-se para os homens que o fitavam com expectativa, anunciou: Agora podem beber seus tragos, pessoal. Nossa reunio est encerrada. Eu e ris agradecemos a ateno que acabam de nos dispensar.
Fazendo comentrios sobre o assunto, os homens dirigiram-se ao balco para pedir cerveja e drinques.
Adam ajudou ris a se erguer e conduziu-a para fora.
	Parece que voc  o lder, por aqui  ela disse, num tom srio.
	Aqueles homens e suas famlias estavam desesperados. Eu lhes trouxe uma possibilidade, frgil e incerta, de algum progresso. Era tudo o que eles precisavam, para voltar a acreditar na vida.
ris o fitou com um princpio de respeito. Adam Freemont era firme como uma rocha... Claro, direto e objetivo. E nem por isso deixava de ser gentil, sensvel e...
"Um grande sonhador", ela concluiu em pensamento, antes de dizer:
	Devo admitir que voc fez o melhor que pde, por mim, dentro das circunstncias.
	Era o que eu pretendia  ele assentiu, com simplicidade.
	S que agora temos dois ou trs problemas para resolver.
	Quais?  ris perguntou, surpresa.
Precisamos arranjar-lhe acomodaes, transporte e material de trabalho.
	Quanto ao transporte, ainda tenho o carro que aluguei em Carson City...
	Ele  invivel economicamente, alm de imprprio para a regio. Rainbow fica a dez quilmetros de distncia daqui. Contando a ida e a volta, voc ter de percorrer vinte quilmetros por dia. Nessa estrada de terra, esburacada e irregular, aquele carro de passeio acabaria se quebrando em menos de uma semana.
	Voc tem razo  ris reconheceu, com ar pensativo. Ento ocorreu-lhe uma ideia.  Escute, Adam, por que voc no me aluga seu jipe... Como  mesmo que voc o chama?
	Esmeralda  ele respondeu, com um meio sorriso.
	Isso. Por favor, alugue-me Esmeralda. Se no cobrar muito caro, eu...
	No quero o seu dinheiro, ris Merlin  ele a interrompeu.
	Vou lhe arranjar um buggy, com pneus largos e prprios para a regio. Quero tambm providenciar o equipamento necessrio a sua pesquisa: lanterna, cantil, bssola, picareta e p, s para comear.  Ele fez uma pausa e ento recomendou: 
	Ah, antes que eu me esquea: compre um chapu, ou acabar sofrendo uma insolao.
	Certo  ela assentiu, com um sorriso.  Conselho recebido, sr. Freemont.
	Faz bem de aceit-lo, srta. Merlin  ele retrucou, no mesmo tom.
Um pouco mais sria, ris comentou:
	Tenho de encontrar algum que v a Carson City e que me faa o favor de devolver o carro, na agncia.
	Pode deixar que eu resolvo esse assunto  Adam se disps.  Agora, gostaria que voc conhecesse uma pessoa.
	Quem?
	Voc ver.  Oferecendo-lhe o brao, ele acrescentou:  Apie-se em mim. Ficar mais fcil andar...  E tomou-lhe a bengala de bambu.
	Obrigada  ris agradeceu.
E assim, ambos venceram os quarteires que os separavam de uma casa de dois andares, na esquina de uma rua lateral.
	Aqui j funcionou a melhor penso de Felicity, mas est desativada. A casa agora  a residncia de Lena e Alex Maxon. Creio que Lena ter prazer em alugar um quarto para voc. O que acha da ideia?
ris contemplou a bela construo, muito antiga, com um sorriso aprovador. Estava preparada para ficar num local muito mais rude e modesto do que aquele.
	Parece-me ideal  ela opinou, por fim.  Agradeo-lhe, mais uma vez.
Os dois transpuseram o pequenino porto de madeira, pintado de branco, e subiram os quatro degraus de mrmore, at a varanda da casa.
Adam bateu  porta por trs vezes seguidas, chamando:
	Lena... Voc tem visitas!
A porta se abriu, dando passagem a uma mulher de aproximadamente cinquenta anos, que enxugava as mos no avental. Era alta e tinha um porte nobre. Os cabelos grisalhos emolduravam o rosto ainda belo, iluminado por olhos negros e brilhantes.
	Esta  ris Merlin, bisneta de A Noiva do Arco-ris  disse Adam.  Ela est  procura um quarto para alugar. 
	E voc gentilmente resolveu traz-la aqui  Lena sorriu, com evidente gratido.  Por favor, entrem e fiquem  vontade. Vou tirar o risoto do forno, mas voltarei num instante, para conversarmos melhor.  Observando ris com ateno, exclamou:  Nossa, como voc  bonita!
	Bondade sua...  ela respondeu, corando.
	Estou apenas sendo sincera, moa  Lena retrucou, afastando-se em direo ao interior da casa.
ris e Adam acomodaram-se nas antigas poltronas da sala de estar. Tudo ali era muito limpo e conservado, ris notou, satisfeita.
	E ento, que tal lhe parece?  Adam perguntou, num tom suave, bem diferente do que usara no saloon, entre os homens.
	Acho que ficarei muito bem, aqui.
	Ento, no vou esperar pelo caf que certamente Lena est preparando, neste exato momento.  Ele ergueu-se.  J me ausentei do trabalho por um tempo muito longo. E tenho alguns problemas para resolver, na rea trs.
	Adam...?
	Sim?
	No sei como agradecer pelo que est fazendo por mim.
	Cuide-se e no cometa nenhum desatino.
	Eu farei isso, pode ter certeza.
	Otimo.  Ele fitou-a com intensidade, antes de confessar:  De certa forma, sinto-me responsvel por voc.
ris corou, diante daquelas palavras.
	Agradeo sua considerao, mas no  preciso preocupar-se comigo.
	Certo...  Aps um breve silncio, Adam anunciou:  Enviarei o buggy para c amanh cedo, juntamente com o material necessrio para seu trabalho. Virei v-la sempre que for possvel.  Com um aceno, ele se despediu.
Pouco depois, uma menina de mais ou menos nove anos esgueirou-se pela porta entreaberta e, encostando-se na parede ficou olhando para ris.
	Eu sei quem voc   disse, de sbito.
	Verdade?  ris sorriu.  Ento, conte-me... Quem sou?
	A Noiva do Arco-ris  a menina respondeu, sem titubear.
S que no se parece com ela.
E como  que voc sabe disso?
	Eu vi a outra noiva no saloon... Naquele quadro que est na parede.
	Ah  ris assentiu.  Voc  muito esperta, sabe? Como se chama?
	Samantha. E voc  ris. 
	Isso mesmo.
	Voc quer ser minha amiga?
	Quero, sim.
A menina sorriu. Era encantadora, em seu vestido de algodo cru, descala, os cabelos finos e quase brancos de to loiros, os lbios encarnados contrastando com a pele alva. Possua dentes midos e regulares, no rosto de traos delicados. Seus olhos negros lembravam o de um esquilinho traquinas e gil.
	J que vamos ser amigas, voc pode apertar minha mo 	disse Samantha, aproximando-se de ris.
Ignorando a mozinha estendida, ela abraou a criana, beijando-a em ambas as faces.
	Muito prazer, Samantha. Agora somos amigas.
	Prazer...  a menina repetiu.  Hum... Voc cheira bem. Est usando um perfume?
	Sim, uma colnia de rosas silvestres. Quer que eu passe um pouquinho em voc?
Samantha concordou de imediato e ris abriu a bolsa,  procura do frasco. Encontrou-o e, com gestos delicados, passou o perfume nos pulsos de sua pequena e nova amiga.
E ento... Gostou?
	Muito  a menina respondeu, levando os pulsos ao nariz, para aspirar o perfume. De repente, indagou:  Voc vai se casar com Adam Freemont?
Pega de surpresa, ris estremeceu.
	Ora... De onde voc tirou essa ideia?
	Bom... Todo mundo vive falando que Adam  muito sozinho e que precisa se casar.  Antes que ris se refizesse, Samantha voltou  carga:  Voc acha Adam bonito?
	Sim... Ele de fato  um homem muito...
	Voc tambm  bonita  Samantha apartou.
	Obrigada  ris sorriu, um pouco mais relaxada.
	Voc e Adam podiam se casar e ter um filho bem bonito. Da eu podia brincar com ele, ensinar o danadinho a ler...
	Voc sabe ler, Samantha?
	Faz tempo que aprendi.
	E o que voc l?
Alice no Pas das Maravilhas, As Aventuras de Tom Sawyer...
	Ora, vamos, chega de tagarelar, Samantha.  Lena interrompeu a conversa, entrando com a bandeja de caf.  Onde est Adam?
	Teve de sair  ris explicou.
	Ah, que pena... Adam vive sempre correndo.  Voltando-se para a menina, Lena indagou:  E quanto a voc, Samantha? O que veio fazer aqui?
	Mame pediu para eu buscar os ovos. Ela vai fazer um bolo muito grande, com calda de mas.
	Esto na cozinha, sobre a mesa. Leve-os na cesta. Voc poder devolv-la, depois.
	Est bem  A menina despediu-se de ris.  Eu j vou indo, amiga. Numa outra hora, a gente conversa.
	At mais, Samantha.  ris sorriu para a criana.  Foi um prazer conhecer voc.
A menina saiu. Lena serviu duas xcaras de caf e sentou-se numa cadeira, em frente  ris.
	Ento voc  a bisneta de A Noiva do Arco-ris. O que veio fazer em Felicity, e quanto tempo pretende ficar?
	 uma longa histria  disse ris, servindo-se de acar.  Mas, para resumir, estou procurando a gargantilha de pedras preciosas que minha bisav escondeu em algum lugar, em Rainbow, antes de morrer.
	Muitos dizem que ela partiu para a Califrnia, levando uma grande fortuna.
	Pois estou aqui para provar que essa afirmao  uma grande mentira.
	Ento  este o seu objetivo?  Lena indagou, erguendo as sobrancelhas, com uma expresso de dvida.
	Sim  ris respondeu, com um suspiro.
	Parece-me um tanto difcil...
	Fcil  se conformar com a vida, dizendo que "o mundo  mesmo assim"  ris sentenciou, com veemncia.
Lena sorriu, em sinal de aprovao:
	Gostaria de ter essa fora e determinao que voc acaba de demostrar. Mas sou uma mulher pacfica, atada a meu destino. Entende o que isso quer dizer?
	Creio que sim. Voc no gosta de brigar...
	Exato. Prefiro manter-me no anonimato, cuidando de meus afazeres dirios.
	Isso no significa que voc tenha menos valor do que as pessoas de carter impulsivo  ris opinou.  Afinal, cada um luta como pode,  sua maneira. E todo mundo tem o direito de escolher seu modo lutar, desde que no prejudique ningum.
	Claro. Esta  a regra bsica que todos deveriam seguir,  ris concordou com um gesto de cabea e um sorriso que no conseguiu disfarar o cansao que a dominava.
Havia sido submetida a uma dura prova, no saloon, diante da populao masculina de Felicity. Estava com o tornozelo esquerdo enfaixado e latejante. Uma pequena dor de cabea ameaava estragar o resto do seu dia... Em resumo, ela precisava repousar, com urgncia.
	Voc deve estar cansada e ansiosa por um banho  disse Lena, aps alguns instantes.
	 verdaderis concordou, com um sorriso cheio de gratido.
	Venha  Lena convidou, num tom amvel.  Vou dar-lhe o melhor quarto da casa. Onde esto suas malas?
	Minha nossa!  ela exclamou, aflita.  Ficaram no carro que aluguei... E Adam vai mand-lo de volta a Carson City!
	No se preocupe, darei um jeito nisso. Agora, deixe-me ajud-la a subir as escadas.
	Obrigada  ris agradeceu, apoiando-se no brao daquela bondosa e compreensiva mulher.
	Como foi que machucou o p?
	Em Rainbow, ontem de manh...
Conversando, as duas subiram lentamente os degraus de madeira que conduziam ao segundo pavimento da casa, e saram num longo corredor.
Lena abria a porta de um quarto mobiliado, que dava para a rua tranquila. Era limpo e espaoso, com graciosas cortinas rendadas nas janelas.
	O que acha de ficar aqui?
	Nesse quarto maravilhoso?  ris retrucou, encantada.  Eu no poderia imaginar nada melhor.
	Que bom que voc gostou  Lena comentou, ao sair.
ris sentou-se numa cadeira, ao lado da cama. Somando e subtraindo, a situao no era nada m, ela concluiu, em pensamento.
Agora, era contar com a sorte versus o curto espao de tempo disponvel para o trabalho que tinha a fazer.
	Tomara que tudo corra bem  disse, baixinho, atirando-se na cama antiga. Fechando os olhos, deixou a mente vagasse pelas lembranas dos fatos ocorridos nos ltimos dias, que tinham sido to movimentados.
A biblioteca onde trabalhava, em Minneapolis, parecia perdida num passado remoto...
ris sorriu. O fato de estar ali, em Felicity, era como a realizao de um velho sonho. E ainda por cima havia conhecido um homem extraordinrio, que a impressionara profundamente.
Ao pensar em Adam, ris sentiu o corao pulsar acelerado. E no era para menos!
Um homem solitrio, vivendo na companhia de um lobo, numa cidade-fantasma... Era o cmulo da imagem romntica.
"S faltava a msica de fundo, o pr-do-sol e a herona com seu belo vestido longo, correndo em cmera lenta para atirar-se nos braos de seu heri", ela pensou, com ironia.
E surpreendeu-se quando um arrepio percorreu-lhe o corpo, seguido de uma onda de calor.
 Francamente, ris Merlin!  repreendeu-se, com desgosto.  H momentos em que voc parece uma adolescente. - E com um profundo suspiro, tentou fugir daquelas imagens poderosas.

CAPITULO III

ris acordou cedo, na manh seguinte. Quando -desceu as escadas para o andar trreo da casa, j estava devidamente vestida para o trabalho que tinha a fazer em Rainbow. Lena a aguardava na cozinha, com o caf da manh j disposto sobre a mesa.
	Descansou bastante?  perguntou, num tom amvel.
	Sim. Dormi o suficiente para restabelecer-me. E agora sinto-me disposta a enfrentar qualquer situao.
	Otimo.  Apontando uma sacola a um canto da mesa, Lena explicou:  Ali est o almoo que preparei para voc. Guardei-o num isopor, para manter-se quente. Fiz tambm um pouco de suco de laranja, que j est na garrafa trmica. Ele a ajudar a manter-se hidratada.  Aps uma pausa, aconselhou:  No subestime o sol desta regio. Trate de se manter protegida e tome muito lquido.
	Eu farei isso. Voc  muito gentil, Lena.
	E voc  a delicadeza em pessoa. Sente-se, por favor. E sirva-se  vontade.
	Obrigada.  ris acomodou-se  mesa.
	Adam veio pessoalmente trazer suas malas, ontem  noite  Lena informou-a.  Voc estava dormindo. E no quisemos acord-la.
	Foi um alvio encontrar meus pertences ao lado da porta, nesta manh. Vocs esto sendo uns verdadeiros anjos da guarda para mim.
	A hospitalidade  a marca de nossa terra.  Lena sorriu, com ar bondoso.  Pena que os tempos sejam to duros e, o dinheiro, to escasso. Tnhamos festas to belas por aqui, nos velhos tempos. Festas que contavam um pouco a histria de Felicity e Rainbow. Elas atraam gente de toda parte, sabe?
	E por que no se fazem mais essas festas?
	Com que dinheiro?  Lena retrucou, desanimada.  E para quem? No momento, tudo o que podemos fazer  lutar para que Felicity no se transforme numa cidade-fantasma, como aconteceu com Rainbow.
	 verdade  ris concordou, penalizada.  Bem, talvez um dia as belas festas de que voc fala voltem a acontecer.
	E isso que Adam pretende, com seu projeto de reativao das minas.
	Voc acha que dar certo?
	Tenho f que sim. Alis, todos em Felicity esto esperanosos.  Lena serviu-se de uma xcara de caf.  Quando Adam partiu daqui, com a famlia, era ainda um rapazinho. Mas lembro-me muito bem dele dizendo que voltaria, depois que se formasse. Na poca, eu e muita gente rimos de sua determinao. Afinal, tanta gente parte da cidade natal com srias intenes de retornar... Mas depois se deixa engolir pela vida agitada das cidades grandes.
	Mas no foi isso que ocorreu com Adam  ris comentou.
	Ele voltou para cumprir sua promessa  disse Lena.
	E onde Adam esteve, durante esse tempo todo?
	Vernica e Lester Freemont, pais de Adam, se separaram quando ele era ainda adolescente. Lester mudou-se para o Alasca e, Vernica, para Boston. Adam acabou optando por ficar com a me. A facilidade que a cidade grande oferecia, com relao aos estudos, devem ter determinado sua escolha. 
ris provou um biscoito de polvilho. Estava delicioso e combinava perfeitamente bem com o caf forte, com pouco acar, como era de seu gosto. Lena continuou o relato:
	Vernica escrevia com frequncia, tanto para mim como para vrias outras pessoas aqui de Felicity. Foi atravs de suas cartas que ns acompanhamos o desenvolvimento de Adam: o curso secundrio, o primeiro emprego, o ingresso na faculdade, de onde saiu formado como engenheiro de minas. O pai dele faleceu logo depois. Alguns anos mais tarde, foi a vez de Vernica. Ento ele ficou livre para voltar... E foi o que fez.
	E como os moradores de Felicity reagiram?
Com muita alegria, pois Adam sempre foi muito querido por aqui.
	Isso deu para perceber  ris comentou, servindo-se de mais um biscoito.
Lena prosseguiu:
	Mas apesar de possuir a muitas terras, tanto aqui quanto em Rainbow, Adam no podia se considerar um homem rico. Pois as terras de nada valiam.
	Como assim?
	Ora, tudo no passava de uma grande extenso de areia e pedras, num cho esburacado por minas antigas e h muito abandonadas.
ris assentiu com um gesto de cabea. E afirmou:
	Mas Adam no veio de mos vazias. Ele tinha um projeto, no?
	Sim. Um projeto que causou tanto espanto quanto descrena, na primeira reunio que ele fez com os moradores daqui, no Saloon Aperto de Mos. Adam propunha nada menos do que a reativao dos garimpos. E trazia provas de que seu objetivo era bem fundamentado.
Lena fez uma pausa e ofereceu a ris mais uma xcara de caf.
	Obrigada  ela agradeceu, aceitando.  Esse desjejum est delicioso.
	Foi feito com muito carinho e simplicidade  Lena afirmou, lisonjeada.
	Pois estes so os ingredientes ideais para uma refeio agradvel e bem equilibrada  ris sentenciou, com um sorriso carregado de simpatia.
Lena sorriu de volta. Por alguns momentos, ambas ficaram em silncio, saboreando o caf da manh. Na cozinha fresca e limpa, pairava um aroma de po recm-assado, biscoitos e caf.
ris pensou, comovida, que h muito tempo no se sentia to bem.
E Lena prosseguiu:
	O primeiro a aderir  causa de Adam foi George Earley.
	Ah, eu o conheci, ontem. Pareceu-me um homem bastante ntegro, alm de educado e simptico.
Lena concordou com um gesto de cabea e acrescentou:
	Ele , tambm, o mais rico de todos ns... Se  que podemos chamar de riqueza os doze mil dlares que tinha numa conta em Carson City, para ampar-lo na velhice.  Com um profundo suspiro, Lena continuou:  Pois ele colocou esse dinheiro  disposio de Adam, tornando-se scio no projeto. Depois, tudo ficou mais fcil.
	Por qu?
	Porque, entusiasmados com o gesto de George Earley, os homens foram aderindo ao projeto, fornecendo suas escassas economias, seus bens materiais, ferramentas, veculos... Enfim, colaboraram com tudo o que podiam. Adam aceitava cada oferecimento como se fosse uma jia rara, de valor incomparvel. E os que no possuam bens materiais para empregar, entraram no projeto apenas com seu trabalho fsico. Tambm foram aceitos.
ris sentia-se verdadeiramente impressionada. Sabia que Felicity inteira estava empenhada numa luta rdua contra a misria, que sem dvida a levaria  runa e ao esquecimento. Mas ouvir Lena falando sobre o assunto dava-lhe uma viso bem mais ampla da situao.
	E comovente  ela comentou, com sinceridade. Ento, como se falasse consigo mesma, indagou:  Mas e se Adam fracassar... Se no conseguir reativar as minas?
Lena fixou nela os seu belos olhos negros, herana de ancestrais rabes. Por fim sorriu, com resignao.
	Se isso acontecer, ficaremos ainda mais pobres do que j somos. Mas este no  o meu maior temor.
	No?  ris contraps.  Mas o que poderia ser pior do que essa triste possibilidade?
Como se no ouvisse o aparte, Lena confidenciou:
	Penso em Adam e na tremenda responsabilidade que pesa sobre seus ombros. Conheo-o desde menino. Se ele fracassar, no sobreviver. Voc... voc entende o que quero dizer?
	Sim  ela respondeu, tomada por uma forte emoo.
De fato, agora percebia o quanto aquele trabalho era essencial para Adam Freemont. Durante quantos anos ele o havia elaborado, em meio a muitos estudos e determinao!?
De sbito, ela vislumbrou uma faceta de Adam, que at o momento havia lhe passado despercebida... Ele era um cavaleiro andante, um Don Quixote da era moderna, que brandia as armas de seus sonhos contra a realidade de um mundo cruel e indiferente s pequenas comunidades que j no podiam oferecer lucros. Ele dedicava sua luta  sorte e felicidade dos desvalidos, dos esquecidos pelos poderosos.
Agora entendo a razo pela qual Adam est me apoiando pensou, em voz alta.
	Para mim, essa razo esteve muito clara desde o princpio Lena opinou.  Vocs so iguais, no idealismo e no sonho. Que Deus os proteja.
	Obrigada  ris murmurou, com a voz trmula de emoo.
	Ora... Ns precisamos de gente como vocs neste mundo maluco.
	De gente como voc tambm, Lena  ris retrucou, tomando a mo daquela bondosa mulher, por sobre a mesa, num gesto de carinho. Uma slida amizade comeava a nascer, ali, naquele exato momento.
Na cidade-fantasma de Rainbow, ris estacionou o buggy na sombra projetada pela fachada de um prdio em runas, de dois andares, cujas laterais e fundo tinham sido devorados pelo tempo.
"Preciso de um mtodo...", ela pensava, enquanto descia cuidadosamente do veculo, apoiando-se na bengala de bambu. "Tenho de estabelecer um projeto, uma sequncia de pesquisa."
Mas qual seria esse mtodo e em que se basearia? Essa era a questo. A resposta no tardou a chegar:
	Na rotina diria de minha bisav!  ela concluiu, satisfeita.
Sim... Era exatamente isso que faria. O primeiro passo seria reconstruir Rainbow mentalmente: mapear as casas, os estabelecimentos comerciais, o centro de diverses, a cadeia, o armazm, o saloon...
Tomada por um forte sentimento de determinao, ris pegou um velho mapa e um caderno, que estavam no banco do buggy. Segurando-os sob o brao, caminhou at o incio da rua principal, com as costas voltadas para Felicity, que ficava a dez quilmetros de distncia.
	Estou entrando em Rainbow no comeo desse sculo  disse.  Venho a cavalo de Felicity... A negcios. Deixo meu cavalo na estrebaria, onde lhe daro gua e comida.
Munida de um lpis, ela desenhou uma pequena construo de madeira, a um canto da primeira pgina do caderno...
Quando parou para almoar, cerca de quatro horas depois, ris havia criado uma cidade de papel... Ou seja: um esboo do que talvez tivesse sido Rainbow, nos velhos tempos.
Comparando o tamanho dos poucos alicerces e runas que restavam na cidadezinha, ela procurava chegar um pouco mais perto da verdade. Uma estrebaria, por exemplo, no poderia ter alicerces mais firmes do que uma loja de ferragens. Um banco no ficaria no ponto mais afastado da rua principal, mas sim no centro... Assim, ris ia transpondo as barreiras do tempo, em direo ao passado. Dava asas  imaginao e tentava fundament-la na coerncia da razo. Era como fazer uma viagem no tempo.
Aps o almoo, regado ao suco de laranja que descia-lhe pela garganta como uma doce carcia, ris resolveu retomar o trabalho. O dia estava quente e nenhuma brisa soprava para aliviar o calor.
Erguendo-se com cuidado, ris esticou os braos, unindo as mos acima da cabea e respirando o ar quente do deserto. Estava pronta para a segunda etapa do plano e para isso precisava da memria dos habitantes de Felicity.
Satisfeita com aquele incio de trabalho, ela contemplou o desenho que havia traado no caderno. J tinha por onde comear. Agora, era seguir em frente.
Entrando no buggy, ris dirigiu de volta a Felicity. Passou a tarde conversando com as pessoas da cidade. Era um prazer ouvir as histrias empolgantes de uma poca que aos poucos ia sendo reconstituda em sua mente.
Cada detalhe era importante, cada fragmento de lembrana significava uma pea do quebra-cabea que ris montava, pacientemente.
Quando voltou  penso, vinha com ideias e informaes bem diferentes das que havia traado, pela manh. Sentando-se  pequena mesa prxima da cama, no quarto arejado e limpo, ris refez o desenho inicial. O local que julgara ter sido uma estrebaria fora, na verdade, um depsito de alfafa, feno, e cereais. A barbearia e salo de banhos ficavam ao lado do cartrio e no no final da rua, como lhe parecera... Assim, com base nas anotaes conseguidas naquela tarde, ris ia fazendo as modificaes necessrias na planta que traara sobre Rainbow.
Entre as vrias informaes que colhera, uma delas era bastante importante: a de que um juiz chamado Gore Meredith, que residia em Carson City, possua documentos muito antigos, referentes a Rainbow e Felicity, em sua vasta biblioteca.
ris naturalmente pretendia visit-lo. Mas s faria isso dali a alguns dias quando houvesse coletado mais dados sobre o caso.
Naquela noite Adam no apareceu para visit-la.
Mas no dia seguinte, quando examinava as cercanias de Rainbow, viu a poeira erguida por um veculo que se aproximava pela estrada deserta. No demorou a reconhecer o jipe Esmeralda, com sua cor inconfundvel, contrastando com os diversos tons de amarelo e marrom que compunham a paisagem ressequida.
Adam desceu do veculo e saudou-a com um leve sorriso. Kima, a cadela husky-cross, o acompanhava.
	Ol, ris. Vim ver como voc est se saindo, na pesquisa.
	Bom dia, Adam  ela respondeu ao cumprimento, num tom cordial. Em seguida pediu:  Voc faria o favor de manter Kima distante de mim?
Com um gesto, Adam ordenou ao animal que se sentasse a alguma distncia. Em seguida aproximou-se de ris:
	Voc realmente no gosta de cachorros.
	Fobia seria uma palavra mais correta para definir o que realmente ocorre comigo.
	Trata-se de uma simples antipatia, ou o caso tem razes mais srias?  Adam perguntou, sentando-se numa pedra.
	 um trauma que carrego desde menina. Meu pai tinha um dobermann, que vivia deitado  porta do quarto dele. Certa tarde, um amigo veio procur-lo. Tratava-se de um caso urgente e papai estava dormindo. Ignorando o aviso que ele sempre me repetia, com frequncia, tentei abrir a porta do quarto para cham-lo. O dobermann atacou-me, mordeu meu pulso e eu pensei que fosse morrer de pavor. Voc j foi mordido por um cachorro?
	Nunca.
	Nem queira.  terrivelmente doloroso. Eu, pelo menos, fiquei traumatizada.
	E seu pai, o que fez?
	Um bom curativo. E repreendeu-me por haver desobedecido suas ordens. Ele era um homem seco, nada comunicativo e muito duro.
	E quanto a sua me, como reagiu?
	Tomou-me no colo e tentou me consolar. Que mais poderia fazer?
	No sei... Talvez explicar-lhe que o co no a havia atacado por maldade e sim por instinto. Acho que ela deveria fazer qualquer coisa para ajud-la a vencer o medo de ces, que sem dvida a assaltaria, dali por diante.
	Acho que isso nem ocorreu  mame  ris comentou, com ar melanclico.
	E nem tampouco a seu pai.
	Oh, no, ele jamais se daria ao trabalho de me explicar qualquer coisa. S falava o necessrio comigo. Era como se eu, por ser criana, no tivesse a menor importncia.
	E sua me? Tambm a tratava com essa distncia e frieza?
	No.  ris sorriu.  Minha me era uma doce pessoa, que amava meu pai acima de todas as coisas. Ele se aproveitava dessa situao para exercer toda a tirania que sua eterna imaturidade exigia.
	Voc parece no gostar de seu pai.
	Engano seu. Eu o admirava, apesar de tudo. Ele possua qualidades maravilhosas. Sabia respeitar a natureza, lidava bem com os animais e plantas... Alis, parecia dar-se melhor com eles do que com os seres humanos.  ris fez uma pausa.
 Eleja se foi, tal como minha me. Espero que ambos estejam num lugar melhor e sem conflitos.
	E eu espero que algum dia voc consiga acabar com esse trauma em relao aos cachorros. Eles so animais admirveis e muito fiis. Kima poderia ajud-la bastante nesse sentido, sabe? Ela  o animal mais gentil, inteligente e delicado que j possu.
ris contemplou a bela husky-cross sentada  distncia. O pelo sedoso prometia ser macio ao toque... Mas ris meneou a cabea, num gesto de recusa.
	Prefiro no tentar nada, por enquanto. E voc sabe quais so minhas razes.  ris mostrou-lhe o pulso direito, marcado por uma grande cicatriz.
	Deixe-me ver...  Tomando-lhe a mo, Adam examinou a marca.  Puxa... Por esta cicatriz, posso imaginar a gravidade da mordida.
	Quase perdi a movimentao dos dedos. Fiz fisioterapia durante anos.
A conversa flua normalmente, mas Adam no soltava a mo de ris. Seus dedos longos desenhavam um contorno suave sobre a cicatriz.
Aquele toque suave e despretensioso parecia penetrar pela pele de ris, contaminando a corrente sangunea com uma sbita eletricidade, fazendo seu pulso acelerar enquanto o rosto corava levemente. Ela retirou a mo e com indisfarvel embarao comentou:
	Bem, agora voc conhece um pouco mais sobre mim.
	 verdade.  Ele sorria, fixando seus olhos azuis-acinzentados nos dela.
	E, assim, estou em desvantagem  ris tentou gracejar.  Diga-me, Adam, voc no tem nenhum ponto fraco?
	Eu?
	Sim... No sofre de algum medo incontrolvel... Alguma fobia?
	Creio que todo mundo tem seus pontos de fragilidade  ele respondeu, pensativo.  As marcas que trazemos da infncia so poderosas. E muitas vezes determinam nossas aes mais impensadas, mais incoerentes.
	E ento?  ela insistia.
	Bem... Eu tenho umas enxaquecas terrveis, que costumam me jogar na cama, inutilizando-me por vrias horas e at dias.
	Mas isso pode ter razes fsicas  ris ponderou.  s vezes,  a consequncia do mau funcionamento de algum rgo, ou de outra funo do corpo.
Adam meneou a cabea, em sinal de discordncia.
	No... Cansei de ir a mdicos, para descobrir a causa dessas enxaquecas. Alguns especialistas tentaram me transformar em cobaia. Queriam me pesquisar, como se eu fosse objeto. Bombardearam-me de remdios fortes, s para ver minhas reaes...
	E o que voc fez?
	Fugi,  claro,
ris riu:
	Eu faria o mesmo.
	E faria muito bem. No gosto de remdios. S os tomoquando absolutamente necessrio.
	Eu tambm. Mas, e ento? Voc no descobriu a causa das enxaquecas?
	No exatamente. Mas acho que elas tm um fundamento psicolgico... Algo ligado  separao de meus pais.
	Lena me contou que seu pai foi para o Alasca e que voc ficou com sua me, em Boston.
	O que Lena no sabe, ainda no aconteceu  Adam sentenciou.  Este  um velho ditado, que os moradores de Felicity vivem repetindo.
	Voc est querendo dizer que ela  fofoqueira?
	De jeito nenhum  Adam esclareceu.  Lena  apenas uma boa observadora da vida e das pessoas. E se ela lhe contou minha histria,  porque sentiu que podia confiar em voc  ele finalizou, com um leve sorriso... Que atingiu ris de maneira devastadora.
Como algum podia sorrir assim, de maneira to simples e singela?, ela pensou, comovida.
	E ento?  Adam perguntou, mudando de assunto.  Como est o seu trabalho?
	Quero mostrar-lhe uns desenhos que fiz sobre Rainbow.
	Deixe-me ver.
ris estendeu-lhe o resultado de sua pesquisa, at ento. Eram quatro folhas agora, numeradas em algarismos romanos. Adam deixou os olhos se perderem nos traos leves e precisos que compunham cada um dos mapas.
ris tentou explicar o caminho que fizera at ali, as correes que havia acrescentado, de acordo com as informaes obtidas nas entrevistas com os moradores de Felicity. Mas, para sua surpresa, Adam j tinha captado a ideia no ar.
	Eu j entendi  ele afirmou, continuando a observar o desenho. Aps um longo momento, acrescentou:  Isto no est correto, ris...
	Como assim?  ela indagou, com a ateno fixa no ponto indicado por Adam.
	O local que voc julga ter sido a cadeia, devido ao alicerce de pedras largas, era na verdade o depsito de dinamite. Por isso ficava to afastado do centro da cidade.
	Oh, eu no havia pensado nisso.  Pegando o lpis do bolso, ela corrigiu o desenho.  O que mais voc v de errado, na disposio das construes?
	Nada. Est tudo correto. Exceto, talvez...  ele interrompeu-se.  Ora, deixe estar.
	Diga, por favor.
	Mas no tenho certeza...
	Mesmo assim, fale.
	A casa de sua bisav...  Adam desviou os olhos do papel e fitou ris.  Ela no consta do desenho.
	Mas pensei que, quando estivesse em Rainbow, minha bisav ficasse num dos apartamentos que havia no segundo andar do saloon. At mesmo Lena concordou com essa hiptese, quando a entrevistei, ontem.
	De fato, essa afirmao tem l seu fundo de verdade. Mas o que voc desconhece  o forte esquema de segurana que sua bisav montou, para defender suas posses. Venha, eu lhe mostrarei.
Com o corao aos saltos, ris seguiu Adam pela rua central da cidade-fantasma. Ambos andavam devagar, j que ris estava com o p machucado. Kima os acompanhava, a distncia.
	Wynne Rowland, seu bisav, viajava o tempo todo para negociar ouro e prata  Adam explicou.   lgico supor que durante essas longas viagens, A Noiva do Arco-ris mantinha-se muito bem protegida.
	Isso faz sentido. Mas aonde voc quer chegar?
	A uma histria que ouvi quando menino e que por sinal era uma das minhas preferidas.
- E o que diz a histria?  ris indagou, ansiosa.
	Trata-se do ataque a Shadow House.  E ante o olhar curioso de ris, ele esclareceu:  Um grupo de aventureiros bem armados tentaram roubar sua bisav, numa das ausncias de Wynne Rowland.
	Shadow House...  ris repetiu, pensativa.  Nunca ouvi falar desse nome.
	Alguns dizem que esse lugar nunca existiu, que tudo no passa de lenda. Mas eu penso de modo diferente.
Ambos haviam chegado ao alto de uma elevao, de onde podia-se avistar toda Rainbow.
	Acho que era aqui  Adam continuou.
	Shadow House?  ris indagou, tomada por uma forte emoo.
	Sim. A fortaleza onde ris Merlim defendeu a tiros sua fortuna.
ris olhou para baixo, com um sentimento de decepo. O que havia ali no alto daquela elevao era apenas... um buraco. Uma cratera enorme cheia de detritos, areia e pedaos apodrecidos de madeira.
	No se parece em nada com uma fortaleza, ou algo assim ela comentou.
	Mas observe essa linha reta, formando um ngulo de noventa graus naquela moita de espinheiro.  Adam abaixou-se, puxando ris para perto de si.  Olhe com ateno e veja se no concorda comigo.
	Parece que esse sulco foi cavado como base de uma construo, na rocha bruta.  ela concluiu, aps um exame atento. De sbito, sentiu-se invadida por uma onda de entusiasmo.  Ei! Se houver outras trs linhas cavadas do mesmo modo, sua teoria poder estar certa!
Andando o mais rpido que podia, ris foi at a moita de espinheiro e, calculando noventa graus, virou-se na direo leste.
	V at l, Adam. Por favor.
Muito calmo, ele andou at o ponto indicado, contornando a cratera.
	Aqui?
	Um pouco mais  esquerda.
	Est bem.  Adam abaixou-se e examinou o local, com uma expresso concentrada.  Isso tudo foi queimado mais de um vez  afirmou, num tom srio.  E o tempo cobriu os vestgios iniciais. Mas espere... Talvez pudssemos dizer que... Sim... Que h uma continuidade a noventa graus ao sul.
	 isto!  ris exclamou, radiante.  Vamos verificar.
	E caminhou na direo sul, tropeando nas pedras soltas, tamanha era sua euforia.  Ah, esse p machucado... Se eu pudesse, daria alguns pulos para comemorar nossa descoberta.
	Vamos com calma  Adam recomendou.  Ainda no temos certeza...
	Mas tiraremos isso a limpo agora mesmo  ela sentenciou, com veemncia.  Ou no me chamo ris Merlin!
Adam sorriu, tomado por um sentimento de pura admirao. Decididamente, a ris Merlin atual havia herdado o carter forte de sua bisav. Embora ambas fossem muito diferentes, eram idnticas na essncia. Corajosas, lutadoras, sonhadoras... Qualidades que Adam respeitava profundamente. 
O sol comeava a declinar no horizonte. Sujos de poeira, suados e felizes, ris e Adam sorriam, triunfantes. Tinham encontrado a base de uma enorme fortaleza, cujo poro de pedra poderia ter abrigado tesouros incalculveis. A parte superior da construo, certamente construda em madeira, havia desaparecido com o tempo.
	 aqui, Adam.  ris sorria, emocionada.  Sinto que achamos a ponta do novelo, o princpio da charada.
Sua alegria era tamanha, que ela queria compartilh-la. Num impulso, estendeu as mos e atraiu Adam para si, beijando-o levemente nos lbios.
	Voc no devia ter feito isso  ele disse, muito srio.
	Por qu?
	Porque agora quero mais.  Abraando-a com fora, beijou-a de verdade.
Surpresa, ris no reagiu ao beijo exigente, bem distinto do anterior, que fora apenas uma demonstrao de alegria.
Mas no estava preparada para a reao fsica que se desencadeou a seguir. Seus braos se elevaram, cruzando-se atrs da nuca de Adam, como se tivessem vontade prpria. Tambm seus ps pareciam depender dela, pois agora erguiam-se e a faziam colar o corpo contra o de Adam. Perplexa, ris sentiu o desejo msculo e viril daquele homem, vibrando de encontro a suas coxas.
Assustada, ela quis reagir, mas estava presa entre os sentimentos e a razo, que ia perdendo terreno...
Adam apertava-a de encontro a si, enquanto sua boca descia-lhe pelo pescoo, buscando os seios que pareciam esconder-se como pombas assustadas.
	No, Adam...  ela sussurrou.  No.
	O qu?  ele indagou, como se despertasse de um sonho.
Ambos se olharam, mais surpresos do que envergonhados.
A liberao de energia e desejo que acabava de ocorrer tinha sido como um relmpago ofuscante... Que se fora com a brevidade da luz.
	Desculpe.  Adam foi o primeiro a se refazer do espanto.
	Realmente no sei o que deu em mim.
	Est tudo bem  disse ris, ofegante.  Creio que nos excedemos. Eu estava to contente... Desculpe-me.
Agora, nada mais havia a se fazer exceto voltar  rua central de Rainbow.
Ambos andavam lentamente. Adam, muito srio, quase triste. E, ris, to confusa quanto envergonhada.
~ Bem, eu vou indo  ele anunciou, sem fit-la nos olhos.
	E aconselho voc a fazer o mesmo, pois j vai anoitecer.
	Eu irei, sim, mas s daqui a pouco.
	Certo. No demore.
	Fique tranquilo, Adam.
	Est bem.  Voltando-se, ele caminhou em direo ao jipe. Acomodou-se ao volante e deu a partida. Num salto gracioso, Kima sentou-se na parte traseira do veculo, que partiu pela estrada dourada pelo sol que acabava de se esconder.

CAPITULO IV

	Estou indo a Carson City. Quer alguma coisa de l? ris estava parada no centro da sala, usando culos escuros, calas jeans, uma blusa de seda de tom amarelo-queimado, com estampa de minsculas flores azuis. As mangas compridas protegeriam seus braos do sol forte. Nos ps, um par de mocassins azuis, bastante confortveis, completavam o vesturio. Ela havia tirado a faixa do p esquerdo na noite anterior. E estava feliz por poder movimentar-se livremente, de novo.
	Preciso de cinco minutos para elaborar uma lista  disse Lena.  Voc acha que ter tempo de me trazer algumas compras? 
	 o mnimo que posso fazer por voc, para retribuir um pouquinho de sua hospitalidade.
Lena sorriu, agradecida. E foi escrever a lista, enquanto ris levava para o buggy uma pequena valise de couro e uma frasqueira.
	Aqui est.  Lena alcanou-a no momento em que ela entrava no veculo e estendeu-lhe uma pequena folha de papel. 
 Pretende demorar, por l?
	Dois ou trs dias, no mximo  ela respondeu, apanhando o papel.  Ser uma viagem e tanto... Principalmente nesse velho buggy.
	O que h de errado com ele?
	Nada... Exceto que  apropriado para estradas de terra, mas no para rodovias. Mas, enfim, tenho certeza de que o Zangado aguentar chegar a Tonopah. L, alugarei um caro mais veloz e confortvel.
Lena riu, divertida.
	 este o nome do buggy?
	Sim.
	Mas por que Zangado?
	Por isso... Oua.  ris deu a partida no veculo. O barulho do escapamento era feroz, agressivo.
	J entendi!  Lena afirmou, elevando a voz. Em seguida perguntou:  Est levando gua?
Como resposta, ris mostrou-lhe o grande cantil de alumnio, no cho do veculo.
Lena assentiu com um gesto de cabea e acenou em despedida:
	V com Deus.
ris acenou de volta, acelerou e partiu.
Eram quase onze horas da noite quando ris chegou a Carson City. Estacionou o carro que havia alugado em Tonopah no ptio de um belo hotel, prximo ao centro da cidade.
Estava exausta, com os msculos doloridos devido  viagem, mas sentia-se feliz por ver seu projeto em andamento.
Havia ligado de Tonopah para o juiz Gore Meredith. E ele concordara em receb-la no dia seguinte, s dez da manh.
Levando sua pequena mala e a frasqueira, ris aproximou-se do balco, onde um funcionrio solcito estendeu-lhe uma ficha. Pouco depois, ela se instalava num gracioso apartamento, minsculo mas bastante funcional, no primeiro andar do hotel. A primeira coisa que fez foi tomar uma ducha forte, que ajudou-a a relaxar, minorando o cansao da viagem.
Vestida num leve roupo de seda, ris ligou para a copa do hotel e pediu um lanche: um copo duplo de leite e um sanduche de ricota, com azeitonas pretas.
Cerca de uma hora mais tarde, ela ressonava tranquila diante da tev, que esquecera de desligar.
Na manh seguinte, depois de um substancial caf da manh, ris dirigiu-se  casa do juiz Gore Meredith. No conhecia a cidade, mas havia tomado informaes com o porteiro do hotel. Assim, no teve grandes dificuldades para localizar a manso ajardinada, no bairro residencial mais sofisticado de Carson City.
Foi recebida por um mordomo jovem e simptico, que a conduziu  biblioteca da manso, onde o juiz a aguardava. Sentado a uma escrivaninha que datava do sculo dezessete, esculpida em mogno, Gore Meredith ergueu os olhos dos papis que estava examinando e sorriu com simpatia.
	Admiro sua pontualidade, srta. Merlin. Esta  uma virtude cada vez mais rara hoje em dia. Erguendo-se, aguardou que ela se aproximasse e apertou-lhe a mo, num cumprimento cordial.  Sente-se, por favor. E diga-me em que posso servi-la.
	Em primeiro lugar, quero agradec-lo por me receber  disse ris, acomodando-se na confortvel poltrona de couro, em frente  escrivaninha.  Sei que o senhor  um homem muito ocupado.
	De fato, mas sou tambm curioso. E no deixaria escapar a oportunidade de lhe perguntar de onde tirou esse nome... ris Merlin?
	Sou bisneta da ris Merlin original, numa linha sucessria que passa por Emily, a filha, que foi mandada para fora de Felicity na poca do clera. Depois ela tornou-se me de Shanna, que veio a ser minha me.
	E voc tem como provar essa afirmao?
	Claro.  ris abriu a bolsa e retirou alguns documentos, que ofereceu ao juiz.  Aqui est a prova. Queira verificar, por favor.
O velho juiz manuseou os papis com ar compenetrado. E logo entregou-os de volta a ris.
	Muito bem, vejo que  de fato a legtima bisneta de ris Merlin... A original, como a senhorita mesma diz.
	Exato.
	E ento, em que posso ajud-la?
ris suspirou. Erguendo o rosto com altivez, fitou o velho juiz nos olhos para dizer:
	Quero provar que minha bisav no abandonou Felicity na poca da peste, levando uma fortuna em ouro, prata e jias, abandonando seus conterrneos  prpria sorte.  Aps uma pausa, indagou:  O senhor j ouviu falar de um historiador chamado Donald Fontenot?
	Claro que sim. Ele fez algumas pesquisas aqui, em minha biblioteca, h no muito tempo atrs. Alis, parece-me que percorreu todas as bibliotecas do Estado, em busca de material para escrever o seu livro.
ris hesitou, antes de perguntar:
Se me permite, gostaria de saber qual a sua opinio sobre Donald Fontenot.
Gore Meredith sorriu levemente. Recostando-se na cadeira, ficou pensativo por alguns instantes e s ento respondeu:
	Sou um juiz, srta. Merlin, e estou acostumado a julgar pessoas. Mas o que vou lhe dizer agora, tem um carter absolutamente particular e pessoal.
	Certo, senhor  ris assentiu, num tom srio.  Pode falar.
	Bem... A senhorita conhece a diferena entre as palavras imoral e amoral!
	Perfeitamente. Imoral  quem pratica imoralidades, ou seja: que quebra algum cdigo moral pr-estabelecido. J amoral  a pessoa que no tem nenhum tipo de moral, nem mesmo consigo prpria.
	Vejo que estamos falando a mesma linguagem  o velho juiz comentou, num tom sereno.  A verdade  que acho Donald Fontenot um homem curioso e amoral... Entende?
	Sim. E o senhor acha que essa faceta amoral de Donald Fontenot poderia prejudicar seu trabalho, como historiador?
	No muito... Desde que Donald Fontenot seja imparcial e compreenda que as pessoas mencionadas em seu livro possam obedecer a um cdigo moral que para ele pouco importa.
	Mas isso no o levaria a distorcer alguns fatos?
	Como assim, senhorita?
	Para responder a essa pergunta, preciso lhe contar minha verso sobre a histria de bisav... A nica verdadeira.
	Pois no, senhorita  o juiz assentiu, num tom solcito.  Pode falar.
ris narrou o que j havia repetido tantas vezes, em Felicity, nos ltimos dias. No final, concluiu:
	Se Donald Fontenot realmente  um amoral, talvez no compreenda a razo pela qual minha bisav preferiu morrer ao lado do marido e de seu povo, ao invs de fugir, levando sua grande fortuna. Para ele, ser mais fcil acreditar que ela optou por salvar a prpria pele, sem se preocupar com os outros. Afinal, uma pessoa sem moral e sem tica agiria assim, no concorda?
	Agora entendo o que a senhorita quer dizer  o juiz aquiesceu, com severidade.  Mas o que define um caso com plicado como este so as provas.
	Exato. E eu pretendo consegui-las.
	Como?
ris descreveu, em detalhes, o projeto de trabalho que havia traado, para alcanar seu objetivo. O juiz acompanhou a exposio das ideias e dos fatos com genuna simpatia. E por fim sorriu, em sinal de aprovao:
	Admiro seu projeto e sua determinao, senhorita. E vou apoi-la, dando-lhe as pistas de que necessita.  Erguendo-se, ele convidou:  Por favor, venha comigo.  E caminhou pela sala, em meio s estantes, at parar diante de uma, enorme, que ia at o teto.
ris o seguia, encantada. Estava no ambiente que conhecia e amava: os livros. Cada um deles era um amigo em potencial.
	Estas duas seces dizem respeito a Felicity, Rainbow e Tonopah  disse o juiz, indicando algumas prateleiras.  Os documentos, livros e jornais esto divididos por assunto. Fique  vontade, senhorita. E boa sorte.
	Obrigada, senhor  ela agradeceu, comovida.  Vou comear imediatamente.
	Aquela porta almofadada conduz a um toalete  o juiz informou-a.  A campainha, sobre minha escrivaninha, serve para chamar o mordomo, que a atender prontamente. Agora a senhorita vai me dar licena, pois tenho um compromisso.
 Com um sorriso, acrescentou:  Precisamos conversar mais, qualquer dia desses. A senhorita possui uma mente muito lcida, apesar de to jovem... E bonita, se me permite dizer.
ris corou, lisonjeada:
	Agradeo suas palavras. O senhor  muito gentil.
Com um aceno, Gore Meredith saiu da biblioteca.
As horas correram de maneira imperceptvel para ris, mergulhada profundamente em suas pesquisas. O material era vasto e, os assuntos, os mais diversos que se poderia imaginar.
Havia um semanrio em Tonopah que funcionara por mais de vinte anos. E alguns exemplares faziam parte do acervo do juiz Gore Meredith. Foi justamente em um deles que ris encontrou o que estava procurando:
Numa coluna escrita pelo prprio editor, havia o protesto contra a violncia das gangs que rodavam os garimpos. O jornalista exigia medidas de proteo, por parte das autoridades.
E mencionava o caso do assalto ocorrido em Rainbow mana anterior:
Cito o exemplo do ataque efetuado contra a residncia da famlia Rowland, na cidade de Rainbow.
A sra. ris Merlin Rowland, mais conhecida como A Noiva do Arco-Iris, com a ajuda de cinco empregados, defendeu Shadow House a tiros, pondo em fuga os assaltantes.
No fosse pela slida estrutura de Shadow House, que  uma verdadeira fortaleza, a sra. Rowland e seus fiis servidores teriam fracassado. E a essa altura estariam mortos, como tantos outros inocentes, nessa verdadeira guerra sobre a qual as autoridades do Estado fazem vista grossa...
Uma estranha calma apossou-se de ris. Sua intuio a havia avisado que Adam estava certo. Que aquela cratera, no ponto mais alto de Rainbow, fora a residncia de sua bisav. Agora, aquele jornalzinho amarelado pelo tempo vinha confirmar o fato. Ento, seria a partir de l que ela empreenderia todos os esforos na busca da gargantilha preciosa.
ris caminhou at a escrivaninha do juiz e tocou a campainha. Estava sedenta e muito emocionada.
O jovem mordomo chegou em seguida e fitou-a com uma expresso solcita:
Deseja alguma coisa, senhorita?
Um copo de gua, por favor.
No prefere um suco, ou refrigerante?
No, obrigada. Um copo de gua ser suficiente.
O rapaz saiu e voltou em poucos instantes, trazendo uma bandeja contendo uma jarra de prata muito antiga e um copo de cristal, alto e translcido. Serviu ris e ficou observando-a beber o lquido.
	Posso fazer uma pergunta, sem parecer indiscreto?  indagou, num tom corts.
	Sim, claro  ela assentiu, surpresa.
	A senhorita  mesmo a neta da lendria A Noiva do Arco-ris?
	Bisneta  ris o corrigiu.  Posso tambm satisfazer uma curiosidade?
	Esteja  vontade.
	Voc no  muito moo para ocupar a funo de mordomo de um venervel juiz?
O rapaz sorriu, divertido:
	Na verdade, sou filho da irm caula de tio Gore Meredith... O ramo menos agraciado pela fortuna.  Assumindo um tom confidencial, acrescentou, com sutil humor:  Em resumo... Perteno ao ramo pobre da famlia.
	Oh  ris murmurou, embaraada.  Acho que fui indiscreta.
	De maneira alguma.  Assumindo uma postura descontrada, o jovem mordomo afirmou:  O fato  que, servindo o
meu tio, levo uma vida de prncipe, tenho acesso aos carros que ele usa muito pouco e, o que  melhor: sobra-me tempo para estudar.
	E o que voc estuda?  ris indagou, interessada.
	Tudo o que me cai nas mos. Esta biblioteca  uma bno dos deuses, para algum como eu, que adora livros de todos os tipos.
Iris sorriu:
	Ah, eu tambm sou um rato de biblioteca, como se costuma dizer. Alis, trabalho como bibliotecria, em Minneapolis.
	Isso quer dizer que voc j escolheu uma profisso, coerente com seu modo de ser. Quanto a mim, ainda no consegui me realizar...
	Mas afinal qual  o seu objetivo profissional?
	Turismo histrico. Estou elaborando um projeto bastante ambicioso, sabe? O novo secretrio de cultura e turismo do Estado interessou-se muito por ele.  Com um sorriso de entusiasmo, explicou:  Atravs da associao com empresas de mdio e grande porte, a secretaria pretende estimular o turismo histrico em cidades como Tonopah, Felicity, Eureka...

	O ciclo do ouro!  ris concluiu.
	E da prata. Bem, estamos conversando j h algum tempo e ainda no me apresentei.  Estendendo a mo, disse:  Sou Ivan Meredith.
	ris Merlin, como minha bisav.  E ela retribuiu o cumprimento.
	Muito prazer, ris. Seria atrevimento meu convid-la para almoar? J so trs da tarde e voc est aqui desde as dez da manh.
	Eu adoraria, Ivan. Mas voc pode abandonar o trabalho assim, sem avisar seu tio?
	Sim. So regalias de sobrinho. E ento... aceita?
	Claro, com prazer.
	Vou me trocar e j volto  Ivan anunciou, animado, dirigindo-se  porta.
	Eu o aguardarei no carro.
	Combinado.  E ele saiu.
Retirando uma folha do seu bloco de anotaes, ris escreveu um bilhete de agradecimento ao juiz Gore Meredith e deixou-o sobre a escrivaninha. Depois, guardou os livros e documentos pesquisados no lugar e saiu da manso.
A tarde j ia pelo meio. A incrvel luminosidade do cu lmpido e sem nuvens era como um convite a passear.
ris sentia-se cansada, mas feliz. Tinha pela frente um grande desafio e bem pouco tempo para realiz-lo. Mas j no estava perdida, como antes. Ao contrrio: a cada dia avanava mais em direo ao objetivo to sonhado.
Em poucos minutos, Ivan juntou-se a ela. Vinha vestido com estudada displicncia. As roupas, aparentemente simples, eram de fina procedncia e levavam a marca de grifes famosas. Era um rapaz muito bonito, com seus cabelos ruivos encaracolados e um sorriso cativante no rosto de traos finos.
	Voc faria a gentileza de dirigir?  ris pediu.  No conheo a cidade e...
	Claro  ele a interrompeu, com um sorriso.  Alis, um dos meus passatempos favoritos  dirigir por Carson City, sem destino algum. Vamos?
Como um bom cicerone, Ivan conduziu ris pela cidade, mostrando-lhe os pontos principais: as grandes avenidas, a sede da prefeitura, as praas e reas de lazer, o centro cultural e tantos outros locais importantes.
Com a janela aberta, os cabelos loiros e longos despenteados pelo vento, ris gozava o passeio. Estava satisfeita, descontrada e alegre com a companhia de Ivan, que ia lhe contando vrias histrias sobre a cidade.
	Voc gosta de comida chinesa?  ele perguntou, a certa altura.
	Adoro.
	Temos dois bons restaurantes no gnero, aqui. Um deles fica num local muito bonito que, aposto, voc vai gostar.
	Ento, vamos at l.
	Certo.
Deixando o centro da cidade para trs, Ivan seguiu em direo ao sul.
	Fale-me sobre voc  ele pediu.  O que veio fazer em Carson City, ou melhor: no Estado de Nevada?
Lentamente, ela desfiou sua histria aos ouvidos atentos de Iva, que comentava certas passagens de maneira espirituosa e humor.
Assim, chegaram ao restaurante, vazio quela hora da tarde.
Tratava-se de uma chcara, tendo ao centro um grande lago. O restaurante funcionava numa casa que lembrava um pagode chins, erguido prximo  margem.
Decorado num perfeito estilo oriental, onde o tom vermelho, prata e o preto laqueado predominavam, o restaurante era gracioso, alm de aconchegante.
Ivan e ris foram muito bem recebidos por um jovem garom, que conduziu-os a um aposento que dava para uma fonte rodeada de flores. Um perfume sutil espalhava-se pelo ambiente.
	Que lugar bonito  ris comentou.  Voc costuma vir aqui muitas vezes?
	Sempre que posso. Gosto do ambiente, do atendimento e da comida, que  muito saborosa. Bem, o que voc vai querer?
Diante do complicado cardpio, com quase uma centena de opes, ris desistiu:
	Escolha voc mesmo, por favor. Confio no seu gosto.
Ivan fez os pedidos, seguindo as regras da tradicional cozinha chinesa, onde vrios pratos so servidos, em pores pequenas, delicadas e variadas. ris estava encantada com aquela torrente contnua de sabores, cores e texturas surpreendentes.
O saque gelado dava um toque extico  refeio, combinando perfeitamente com os pratos.
ris abusou um pouco da bebida leve, na qual mal se percebia o forte teor alcolico. E a certa altura sentiu-se um pouco zonza.
	Quanto tempo voc pretende ficar em Carson City?  Ivan perguntou.
	Cerca de mais dois dias. Como j lhe contei, tenho um duro trabalho pela frente, l em Rainbow.
Ele fitou-a significativamente, antes de indagar:
	Voc estar livre, amanh  noite?
	Creio que sim. No conheo ningum na cidade e no tenho nenhum programa em vista.
	Otimo. Ento, se voc me der seu telefone no hotel, telefonarei hoje  noite para marcarmos alguma coisa.
	Combinado  ela concordou.  Agora d-me um pouco mais desse saque e venha dar um passeio comigo, pelo jardim. Quero ver a fonte e aquelas flores de perto. Parecem pintadas uma a uma por um gnio... Que coisa incrvel!
Ivan concordou de imediato, fitando-a com evidente admirao. Servindo-a de mais uma dose de saque, esperou que ela bebesse e ajudou-a a se levantar. Segurando-lhe o brao com intimidade, ele conduziu-a em direo  fonte.
A conversa flua solta, enquanto ambos admiravam as flores delicadas, verdadeiras jias produzidas pela natureza.
Poucas vezes em sua vida ris sentira-se to  vontade, perto de um quase desconhecido.
Ivan tinha um componente que ela julgava nico: a capacidade de unir humor, sagacidade e inesperadas concluses sobre quase todos os assuntos... To diferente de Adam, que a fazia sentir-se como se estivesse sobre um barril de plvora prestes a explodir!.
Adam Freemont... O que ele viera fazer ali, no meio daquela conversa?, ris se perguntou, surpresa.
Ento, foi como se uma porta encostada se abrisse, liberando a lembrana dos beijos trocados com aquele homem to especial... Uma lembrana que a atingiu com a fora de um duro golpe.
ris olhava para Ivan, to gentil, belo e atencioso... Mas que no lhe dizia nada ao corao.
 Gostaria de ir embora  ela pediu, com uma nuvem de tristeza turvando-lhe os olhos profundamente azuis.
Discreto, Ivan nada comentou. Continuando sua fluente conversa, pagou a conta e conduziu ris ao carro.
O trajeto de volta foi percorrido em silncio, quebrado vez por outra por um comentrio de Ivan, que no se esforava demasiado para afastar a melancolia que cara sobre sua nova amiga.
Com uma percepo admirvel, havia compreendido o que se passava com ris. E sabia que de nada adiantaria lutar contra esse fato.
	Onde voc est hospedada?  perguntou.
	No Hotel New England.
	Certo. Eu a levarei at l e depois tomarei um txi para casa.
	Se quiser, poderemos passar em algum lugar, antes ela afirmou, sem a menor vontade. Queria apenas ser delicada.
	Voc parece cansada  disse Ivan, num tom casual.  melhor que fique no hotel.
ris sorriu, tristemente, antes de dizer:
	Por acaso ofendeu-se comigo, por eu ter lhe pedido para ir embora, bem no meio de nossa conversa?
	De jeito nenhum. Alis...  Parando num semforo, ele observou ris por alguns instantes. S ento concluiu:  Eu compreendi o que aconteceu.
ris fitou-o no fundo dos olhos. E entendeu que Ivan no mentia.
Pouco depois, ele estacionava em frente ao Hotel New England. E despedia-se de ris com o mesmo sorriso alegre e bem-humorado de antes.
	Tenha um bom descanso, ris. Gostei muito de conhec-la.
	Obrigada por tudo, Ivan. Voc  um encanto de pessoa.  Ela beijou-o no rosto e conduziu o carro ao estacionamento do hotel. No havia dado o nmero de sua sute a Ivan. Portanto, ele no lhe telefonaria. Mas, pensando bem, talvez fosse melhor assim... J que nada mais teria a oferecer quele belo rapaz.
Pouco depois, aps um banho rpido, ris deitava-se na confortvel cama da sute, pronta para uma noite de sono tranquilo e reparador. Mas sua mente estava inquieta, obrigando-a a pensar em Adam Freemont com uma obsesso irritante.
	Meu Deus  ela disse, em voz alta, na penumbra do quarto  Acho que estou apaixonada por esse homem. O que vai ser de mim...?
Mas apenas o silncio respondeu  pergunta.

CAPITULO V

Na manh seguinte, enquanto tomava seu desjejum, ris consultava as pginas amarelas de Carson City.
Meticulosamente, anotava os telefones e endereos de vrias lojas. Depois, em seu quarto, ligou para os nmeros escolhidos e informou-se sobre os preos dos produtos que pretendia comprar para si e para Lena.
Quando saiu do hotel, j tinha uma ideia dos locais aonde iria. Assim, passou a manh fazendo compras, no movimentado centro comercial da cidade, onde por sinal foi muito bem atendida. O mais difcil foi conseguir um tcnico que consertasse seu telefone celular na hora. Aps uma verdadeira peregrinao por vrias oficinas, acabou por encontr-lo.
Depois, ris saiu  procura de um detector de metais que possusse duas qualidades que, para ela, era essenciais: pouco peso e muito alcance. Achou-o numa pequena loja de ferragens e leu o manual de instrues com muita ateno. Tirou as dvidas com o vendedor e saiu, satisfeita.
As outras compras eram mais simples e ris no levou muito tempo para faz-las. Depois, voltou ao hotel, ansiosa para tomar um banho e vestir roupas mais leves. A tarde prometia ser quente, em Carson City.
Um recado do juiz Gore Meredith a aguardava, no balco de informaes. Ele a convidava para jantar em sua manso, naquela noite. Avisava que teria outros convidados e que pretendia fazer uma reunio formal.
"Isso significa traje clssico", ris concluiu, mentalmente. Vasculhando a pouca bagagem que havia trazido, ela ale-
grou-se ao encontrar um vestido de noite, propcio  ocasio. Tratava-se de um longo azul de alas, muito simples e elegante, que ficaria muito bem com o conjunto de colar e brincos de prolas, que ris tambm trouxera. Para completar o figurino, sandlias de salto alto, pouca maquiagem no rosto e cabelos presos.
Como estaria Ivan, o sobrinho do juiz? Ela se perguntou, sorrindo ante a lembrana do rapaz gentil e encantador. Bem, certamente o encontraria, naquela noite.
ris passou o final da tarde na piscina do hotel, nadando e tomando sol. Chegou a conversar com alguns jovens ricos e enfastiados, que nada tinham a acrescentar a sua cultura ou interesse. Sentindo-se cansada, foi para a sute e dormiu por uma hora.
Quando a noite chegou, ris sentia-se muito bem-disposta. Vestiu-se cuidadosamente e mirou-se no espelho com um olhar crtico. O vestido contrastava com sua pele bronzeada pelo sol. Sentindo-se bela e confiante, ela saiu da sute em direo ao estacionamento, entrou no carro e partiu.
A manso do juiz Gore Meredith estava profusamente iluminada.
Vrios carros luxuosos lotavam o ptio de entrada. Os portes de ferro batidos estavam abertos em par. Um guarda uniformizado pediu os documentos de ris, antes de deix-la entrar.
Ela no pde deixar de notar que a maioria das placas dos carros eram oficiais. Isso significava que a reunio no seria exatamente social, mas poltica.
A questo era: por que o juiz a havia convidado para um evento daquele tipo? Sem encontrar uma resposta plausvel, ris dirigiu-se  entrada da manso.
Ivan a aguardava, recostado displicentemente numa mureta da varanda. Usava um traje a rigor, com muita elegncia e descontrao.
	Voc est linda  ele comentou, com um sorriso.  Descansou bastante?
	Sim. Como vai, Ivan?
	Bem... Como foi o seu dia, hoje?
	timo. Fiz umas compras pela manh e passei boa parte da tarde na piscina do hotel.  Aps uma pausa, ris indagou:  Posso fazer uma pergunta?
	Todas que voc quiser.
	O que vem a ser essa reunio. E por que o juiz me incluiu entre os convidados?
	Surpresa.  Ele sorriu, exibindo dentes perfeitos.  Logo mais voc saber de tudo. Mas pode ficar tranquila.
ris no quis insistir, embora continuasse curiosa.
	E quanto a voc, por que no est desempenhando as funes de mordomo?
Ele riu, bem-humorado, antes de responder:
	De certa maneira, a reunies de hoje tem muito a ver com meus projetos. Assim, fui dispensado do servio.  Tomando-lhe o brao num gesto elegante, convidou:  Vamos entrar. Todos esto ansiosos por conhec-la.
ris cumprimentou o juiz Gore Meredith, que a aguardava  entrada do salo. Depois foi apresentada a muitas pessoas, que compunham a fina flor da poltica local. Entre elas estava um homem chamado Henry Parkinsn, a quem Ivan dispensou uma deferncia especial:
	ris... Este  o Secretrio da Cultura e Turismo do Estado de Nevada  disse, num tom respeitoso.  Sr. Parkinsn, esta  ris Merlin bisneta da lendria A Noiva do Arco-ris.
O homem, de baixa estatura e idade avanada, estendeu-lhe a mo num cumprimento polido e a um s tempo distante.
	 um grande prazer conhec-la, senhorita. Seja bem-vinda ao Estado de Nevada.
	A honra  toda minha,  senhor  ris respondeu, educadamente.
Com um leve gesto, Henry Parkinsn dispensou a presena de Ivan. Ento conduziu ris at um canto do salo, para uma conversa particular.
Garons uniformizados transitavam entre os convidados, levando grandes bandejas com drinques e canaps. Murmurando um agradecimento, ris aceitou um coquetel de champanhe que Henry Parkinsn lhe ofereceu. Em seguida, ele serviu-se de um scotch com gelo. Sorveu um gole e abordou o assunto que tinha a tratar:
	Estamos num momento econmico e poltico propcio a certas ideias de desenvolvimento turstico, na regio. E esse desenvolvimento tem tudo a ver com a histria dos garimpos.
O povo americano tem um vivo interesse, sem dvida romntico, sobre o passado de nosso pas.
	Todo povo se interessa por sua histria  ris comentou.
	Lgico. Mas h momentos em que esse interesse fica mais acirrado... Tal como agora. E acho que devemos aproveitar esta oportunidade para erguer a economia de certas regies muito pobres, como Felicity e tantas outras velhas cidades, que esto abandonadas e esquecidas.
ris o ouvia com ateno, enquanto sorvia o champanhe perfumado e leve. O secretrio tomou mais um gole de seu scotch, antes de prosseguir em sua explanao:
	Gore Meredith  um intelectual e humanista. Ele me falou sobre voc, ontem. E como tnhamos esta reunio marcada, achamos que sua presena seria preciosa.  Aps uma pausa, Henry Parkinson declarou:  Em resumo, queremos transform-la no smbolo de uma campanha nacional para o turismo histrico do Estado.
A surpresa fez com que ris recuasse um passo. Mas reassumiu rapidamente o controle e perguntou:
	Por que eu?
	Por ser a bisneta de A Noiva do Arco-ris, uma das maiores lendas de Nevada. E, se permite dizer, por ser bela e jovem.
	Obrigada  ris agradeceu, ainda atnita. E pediu:  Gostaria de saber mais sobre a campanha. Mas, a princpio, gosto da ideia. Estou hospedada em Felicity e tenho constatado as dificuldades do povo de l, para sobreviver. Eles no possuem um hospital, ou centro-telefonico... Enfim, nenhuma infra-estrutura.
O velho secretrio a fitava com simpatia e ateno. ris continuou:
	Farei o que estiver a meu alcance para ajudar as pequenas comunidades que um dia foram a rota do ouro e da prata. Tenho certeza de que minha bisav, de quem herdei o nome, ficaria feliz com essa iniciativa.
O secretrio sorriu, satisfeito:
	Eu no esperava outra coisa de voc. Gore Meredith  um homem de viso e acertou em cheio ao propor o seu nome, para liderar a campanha.  Com um olhar cmplice, acrescentou:  Diga-se de passagem que Ivan est literalmente nas nuvens, pois enfim ter a chance de iniciar o projeto que vem arquitetando h tanto tempo.
	E em que consistiria minha participao em tudo isso?.
 ris indagou, de sbito preocupada. E explicou:  Tenho um trabalho a fazer, na regio de Felicity. E disponho de pouco tempo para realiz-lo.
	Gore Meredith informou-me sobre isso. No se preocupe, srta. Merlin. De incio, queremos apenas sua foto para preparar o material da campanha. Depois, veremos o que fazer.
	Pode contar comigo, senhor, mas com uma condio: as fotos devero ser feitas amanh. Pois preciso retornar o mais rpido possvel a Felicity.
	Certo.  O secretrio esclareceu:  Quanto  parte contratual, ficar a cargo de Ivan. Mas ns estaremos sempre em contato, srta. Merlin. Agora, com licena. Preciso dar um pouco de ateno aos empresrios.  Num tom confidencial, acres centou:  Afinal, eles patrocinaro a campanha.  Afastou-se, deois de afirmar:  Foi um grande prazer, senhorita.
ris sorveu mais um gole de champanhe, tentando refazer-se do espanto. Pouco depois Ivan aproximou-se, animado e feliz.
	E ento, como foi a conversa?
	Incrvel... O secretrio no perde tempo.
	Este  o estilo de Henry Parkinson. Se tivssemos mais homens como ele na poltica de Nevada, tudo seria bem melhor.
ris terminou o drinque e ento pediu:
	Fale-me mais sobre o projeto, Ivan. Voc bem pode imaginar o quanto estou curiosa.
Ambos conversaram longamente, embora constantemente interrompidos por pessoas que queriam conhecer a bisneta de A Noiva do Arco-ris. Entretanto, ris estava comeando a se decepcionar com a situao. Pelo que podia perceber, Ivan tinha boas intenes. De fato desejava realizar um belo projeto. Mas o modo como ele falava do secretrio e demais polticos, deixava dvidas.
	At agora, entendi que o secretrio quer fazer muita publicidade, sobre a rota do ouro e da prata. Mas e quanto s melhorias estruturais nas comunidades? Refiro-me  construo de hospitais, escolas... Essas coisas que so essenciais ao desenvolvimento.
	Bem, ele ainda no disse nada de concreto, a esse respeito  Ivan respondeu, um tanto embaraado.  Mas com certeza...
	Entendo  ris apartou, aborrecida.  Mudando de assunto, Ivan, ser que receberei algum dinheiro pelas fotos?
	Claro.  Ele citou uma cifra bastante significativa.
	Muito bem  ela assentiu, pensativa.  Quero lhe pedir um favor.
	Se estiver ao meu alcance...
	Empregue esse dinheiro na execuo de um marco, se possvel em bronze, com a seguinte inscrio: esta  a pedra fundamental do alicerce de um hospital para a comunidade de Felicity, doada pela Secretaria da Cultura e Turismo do Estado de Nevada, como compromisso futuro de sua construo.
	Eu no posso fazer isso  Ivan protestou, constrangido.
	Mas se o secretrio pretende realmente ajudar o povo de Felicity, talvez at fique feliz com minha ideia  ris argumentou, com sutil ironia.
Ivan meneou a cabea, em sinal de negao:
	Desculpe, mas no vai dar...
	Por que no?
	Pense nas implicaes polticas desse ato...
	Prefiro considerar as necessidades da populao de Felicity  ela retrucou, num tom firme.  Ns todos no queremos o bem e o desenvolvimento daquelas comunidades sofridas?
	Claro, mas...
	Ento, faa o que estou dizendo.
	No pressione o secretrio  Ivan aconselhou, num tom cauteloso.  No  assim que as coisas funcionam.
	 assim que as coisas no funcionam  ris retrucou, entregando a taa a um garom que passava.  Desculpe, Ivan, mas acho que vou embora. Foi um prazer falar de utopias com Henry Parkinson. Mas agora, que percebi sua verdadeira inteno, ele que no conte comigo.  E afastou-se, com um aceno.
De volta  sute do hotel, ris serviu-se de uma garrafa de gua mineral que retirou do frigobar e, sentando-se na sacada da sute, ficou refletindo sobre sua vida e os acontecimentos daquela noite.
Nunca fora ambiciosa, como a maioria das pessoas. As portas que os polticos de Nevada poderiam abrir no a atraam nem um pouco.
ris sentia por Ivan, com quem simpatizava muito. Mas, encantador e capaz como era, ele logo arranjaria outra pessoa para ajud-lo em seu projeto.
Um profundo suspiro brotou do peito de ris. Usar o nome de sua bisav em prol de duvidosos interesses polticos, numa campanha dirigida a todo o pas... Seria imperdovel.
Na manh seguinte, ao descer para tomar o desjejum no restaurante do hotel, ris encontrou Ivan  sua espera.
	Bom dia  ele saudou-a, com carinho e simpatia.  Desculpe-me por perturb-la a esta hora.
	Bom dia, Ivan.  Ela o beijou em ambas as faces.  Voc no est perturbando. Toma caf comigo?
	Uma xcara, apenas.
O garom atendeu ambos e afastou-se, desejando-lhes uma boa refeio.
	Voc causou sensao na festa de tio Gore Meredith  Ivan comentou, cauteloso.
	Devido a minha presena ou  ausncia?  ris gracejou.
	A ambas  Ivan respondeu.  Meu tio quase me deserdou, por eu t-la deixado partir daquela maneira.
	E o secretrio?
	Chamou-a voc de atrevida e mandou-me conseguir outra pessoa para a campanha.
	Eu sabia. Ele tem um discurso muito humanista e coerente, mas no passa de um poltico ambicioso.
	Acontece que quem o colocou onde est foi o meu tio.
ris sorveu um gole de suco de laranja, um tanto surpresa com aquela afirmao.
	Ele quer falar com voc  Ivan anunciou.
	Quem? O seu tio, ou o secretrio?
	Meu tio,  claro.
	Ser um prazer  ris concordou.  Podemos terminar o caf?
Ivan consultou o relgio de pulso.
	Temos quinze minutos.
	Sero suficientes. Agora fale-me da festa. Divertiu-se bastante?
Ivan sorveu um gole de caf e fez comentrios espirituosos sobre a reunio, enquanto ris terminava o desjejum. Pouco depois, ela subia para pegar a bolsa e um leve casaquinho de brim. A manh estava fresca, devido a uma brisa mais forte, que soprava do sul.
Ivan, que tinha vindo de txi, dirigiu o carro de ris at a manso, onde o velho juiz os aguardava, em seu escritrio situado na ala norte da casa.
	Perdoe-me a deselegncia de ontem  noite, senhor ris desculpou-se, ao cumpriment-lo.  Mas se eu ficasse poderia causar alguns transtornos. Por isso, preferi sair.
Ivan, sentado numa poltrona um pouco afastada, cruzou as pernas com visvel nervosismo.
	A senhorita privou-nos de sua agradvel companhia e perdeu conversas interessantes  o juiz sentenciou.  Mesmo assim, est desculpada. A juventude tem o privilgio da impetuosidade.  Aps uma pausa, indagou:  Quer dizer que a senhorita condicionou sua participao no projeto de Ivan  construo de um hospital em Felicity?
	Ao compromisso com a construo, se me permite corrigi-lo.
	Muito bem  o juiz assentiu, num tom severo.  Acontece que a construo de hospitais, prontos-socorros e outros locais semelhantes no compete ao sr. Parkinson e sim ao secretrio de sade.
	Este no  um problema meu. Os convnios e acertos entre secretarias  assunto que compete aos secretrios e ao governo.
Um silncio tenso caiu no ambiente. E o velho juiz voltou a falar:
	A senhorita acredita mesmo que sua bisav era uma mulher ntegra?  Antes que ela respondesse, acrescentou:  Acha que ela desprezou a oportunidade de viver confortavelmente em outro estado, para morrer ao lado dos miserveis infectados pelo clera?
	Tenho certeza disso.
	Certo. E quais so suas chances de provar essa teoria?
	Poucas  ela confessou, com sinceridade.
	Ento, vou lhe propor um trato. A senhorita encabear a campanha de Ivan. Assinar um contrato, cedendo todos os direitos de uso da imagem, nome e memria de sua bisav para o Estado de Nevada. Naturalmente, a sua imagem tambm est includa nesse acordo.
	E o que o senhor me oferece, em troca...?
	O marco, em bronze, da construo do hospital em Felicity. E quem se responsabilizar por esse compromisso no ser a Secretaria de Cultura e Turismo, nem a de Sade.
	Ento, que...?
	A Fundao Meredith, cuja direo  de minha competncia.
	Ou seja, o senhor se responsabilizar pelo compromisso?
	Pode ser dito assim.
ris, que at o momento mantivera-se numa postura rgida, relaxou e sorriu, satisfeita.
	Para mim est perfeito  disse, feliz.  Pois confio na sua palavra.
	A senhorita  bastante esperta, isso sim  o juiz afirmou, com um sorriso. E sentenciou:  Governos passam... mas a Fundao Meredith permanece.
	Exatamente.
Num tom mais srio, o juiz Gore Meredith comentou:
	No sei se a senhorita est informada a respeito de um movimento em Felicity, cujo objetivo  a reativao das velhas minas.
	J ouvi falar sobre o assunto  ela respondeu, discreta.
	Parece que o pessoal por l est bem organizado. E que alguns investidores ficaram interessados no projeto.
	E quanto  fundao Meredith?  ris indagou.  Pretende intervir no caso?
	Sim... No que for preciso.
ris sentiu-se invadida por uma onda de alegria.
	E bom saber que o povo de Felicity pode contar com o senhor. 
	E, eu, com sua presena no projeto de Ivan, vinculado  Secretaria de Cultura e Turismo  Gore Meredith contraps.
 Bem, agora preciso atender a um compromisso.  Lanando um olhar de ris para o sobrinho, acrescentou:  Acho que a senhorita e Ivan tm muito a conversar.
ris ergueu-se e estendeu a mo em despedida. Num gesto inesperado e muito srio, o velho juiz beijou-lhe a mo, num gesto galante, que lembrava os antigos cavalheiros.
	Deus a proteja, ris Merlim. E que seus sonhos se realizem.
	Obrigada  ela agradeceu, emocionada.  O senhor  um homem admirvel.
Pouco depois, ris e Ivan saam da manso, discutindo animadamente sobre o projeto.
	Bem, aonde vamos?  ela perguntou.
	A um bom estdio fotogrfico, ora. Precisamos fazer as fotos.
ris, que nunca havia trabalhado como modelo, jamais imaginou que a produo de uma srie de fotos desse tanto trabalho.
Sob a direo de um fotgrafo canadense, to exigente quanto talentoso, ela passou o resto da manh e a maior parte da tarde posando. Excetuando-se duas pausas para uma rpida refeio, o trabalho foi intenso.
Anoitecia quando ris deixou o estdio, acompanhada por Ivan.
Agora estava livre para deixar Carson City, mas s o faria na manh seguinte, pois no gostava de dirigir  noite.
	O que acha de irmos a um cinema, ou a um concerto, agora  noite?  Ivan convidou.
	Agradeo muito, mas preciso descansar.
Ambos estavam na calada, prximos ao carro. Ficaram se olhando por um longo momento e ento Ivan quebrou o silncio:
	Se um dia voc deixar de amar essa pessoa que no lhe sai do pensamento... avise-me, por favor.
Comovida, ris confessou:
	Este sentimento que voc percebeu em mim  to recente, que eu nem saberia defini-lo como sonho ou realidade.
Ivan assentiu, com um profundo suspiro. E sua voz soou ligeiramente trmula de emoo, ao dizer:
	Voc tem o telefone de tio Gore Meredith. Poderia me dar o seu?
	Claro.  ris tirou uma caderneta da bolsa, anotou o nmero do celular e entregou-a a Ivan.
	Obrigado. Ns... ns ficaremos em contato. Quem sabe voltaremos a nos ver em breve.
	Ser um prazer, Ivan. Bem, at qualquer dia.
	At.
ris entrou no carro, deu a partida e desapareceu em meio ao trfego intenso daquele incio de noite. Parado na calada, Ivan sorriu tristemente:
	Que pena, ris Merlin... Poderamos ter comeado uma bela histria de amor.  E acenou para um txi que passava.

CAPITULO VI

ris saiu de Carson City ao amanhecer. .Havia pedido no hotel que a chamassem por volta de cinco horas da manh. Aps um rpido desjejum, arrumou a bagagem e deixou-a sobre a cama, juntamente com as compras que tinha feito.
Um office-boy encarregou-se de levar tudo at o carro, enquanto ela acertava a conta na recepo.
	Faa uma boa viagem, senhorita. E volte sempre.  O tom profissional do atendente no era despido de cortesia.
	Obrigada.  ris partiu.
O sol estava nascendo.
Durante a viagem, ris refletiu sobre tudo o que acontecera em Carson City. Naqueles poucos dias havia sido submetida a situaes difceis e altas presses. Sentira o peso de posicionar-se duramente contra interesses meramente polticos... Enfim, amadurecera. E ainda por cima levava, no peito, uma esperana: a de que Felicty ganharia, um dia, seu hospital. O saldo fora positivo, ela pensou, satisfeita.
Aps algumas horas, avistou a cidade de Tonopah, que mais parecia uma miragem em meio quele deserto interminvel.
Ali ris teria de trocar o carro que agora dirigia pelo velho buggy barulhento, mas prprio  estrada de terra que a levaria a Felicity.
A manh j ia pelo meio e o calor era intenso. Por isso ris resolveu parar num pequeno hotel para almoar e descansar um pouco, antes de realizar a segunda etapa da viagem.
A tarde, o clima tornou-se um pouco mais ameno. E ris tornou a partir. Tinha aonde chegar e, estranhamente, pensou em Felicity como um lar.
Era quase uma da manh, quando estacionou em frente  casa de Lena. As ruas da pequena Felicity estavam desertas.
Usando a chave que Lena havia lhe dado, ris abriu a porta e entrou na ponta dos ps, tomando cuidado para no fazer barulho. Fez vrias viagens para levar a bagagem e as compras do carro at o quarto. Por fim, terminou.
A luz da cozinha estava acesa e para l ris se dirigiu. Encontrou um bilhete sobre a mesa, que dizia:
ris,
Talvez voc chegue de madrugada. H leite na geladeira e uma torta de legumes com queijo, no forno. Seja bem-vinda. Lena.
ris sorriu.
"As pessoas de cidades pequenas tm tempo de pensar nas outras", pensou, comovida.	
Serviu-se de um copo duplo de leite e de uma fatia de torta, que estava deliciosa. Recolheu-se em seguida, ansiosa por uma noite de descanso.
Dormiu at tarde no dia seguinte e acordou com tima disposio.
Depois de tomar um banho, vestiu jeans e uma camiseta branca. Em seguida desceu para o andar trreo da casa, levando as encomendas de Lena.
	Bom dia, ris. Como foi a viagem?
	Tudo correu muito bem, Lena. E como esto as coisas em Felicity?
	Nenhuma novidade. Adam veio aqui ontem e perguntou por voc. Ficou uns dez minutos e partiu.
A simples meno do nome de Adam fazia com que o corao de ris batesse mais forte. Com um leve tremor na voz, ela perguntou:
	E como ele est?
	Trabalhando muito, como sempre. Esteve colhendo umas amostras nas reas dois e trs. Agora, resta saber o resultado. O material colhido na rea nmero um causou uma tremenda frustrao.
	Por qu?
	O teor de ouro encontrado no compensaria os custos da extrao.  Lena fez uma pausa e sorriu.  Mas no sou eu quem deve contar novidades e sim voc. Como correram as coisas, l em Carson City?
ris tentou resumir:
	Conheci gente importante, assinei um contrato para uma campanha meio maluca, almocei num restaurante chins que era uma graa... Voc precisava ter visto as flores. Mas vamos abrindo os embrulhos, enquanto conversamos  sugeriu, apontando os pacotes que havia depositado a um canto da cozinha.
	Que tal uma xcara de caf, antes?
	 uma boa ideia.
Lena serviu a bebida fumegante, acompanhada por grossas fatias de um bolo de laranja.
	Est delicioso  ris elogiou.  Como, alis, tudo o que voc prepara.
Lena sorriu, modesta.
Pouco depois, desembrulhava, com indisfarvel curiosidade, os pacotes que ris havia lhe trazido de Carson City.
	Que lindo!  exclamou, aps abrir o primeiro pacote.  Voc conseguiu encontrar exatamente o que eu desejava.  Retirou da caixa um corte de tecido fino, desdobrando-o delicadamente  luz suave que penetrava pelas janelas da cozinha.
 Oh, muito obrigada!
	Imagine...  ris retrucou, ajudando-a a abrir o prximo pacote.
Era agradvel ver a animao crescente de Lena. Mas a certa altura ris anunciou:
	Gostaria de ficar conversando com voc nesta manh, mas para ser franca estou ansiosa para voltar a Rainbow. Voc sabe que tenho pouco tempo para realizar meu projeto.
	Claro, amiga  Lena aquiesceu, compreensiva, interrompendo o gesto de abrir um terceiro pacote.  Deixe-me ver o que voc pode levar para o almoo... Ah, que tal a torta de legumes com queijo?
	Perfeito  ris aprovou.  E a garrafa de suco tambm.
E um alvio t-la  mo quando a sede aperta.
	Claro. No deserto, o alimento lquido chega a ser mais importante do que o slido, devido ao perigo da desidratao e, naturalmente, da insolao.
 E por falar nisso, vou buscar meu chapu. Pouco depois ris partia para Rainbow, bastante animada. No levava o detector de metais recm-adquirido. Pois ainda no havia chegado o momento de utiliz-lo.
ris tinha um plano bem definido, agora que havia comprovado a existncia de Shadow House, a residncia de sua bisav. As runas que restavam no ponto mais alto de Rainbow seriam o material de suas pesquisas.
Em meio a esses pensamentos, ris venceu rapidamente os dez quilmetros que separavam Felicity de Rainbow.
Atravessando a rua principal, ladeada por escombros e poeira, ela ganhou a colina que dominava a paisagem e estacionou o buggy ao lado de uns arbustos ressequidos.
Com um profundo suspiro, ris fechou os olhos e tentou imaginar como seria aquela fortaleza chamada Shadow House, desde seus alicerces at o teto.
Com certeza a frente da construo estaria voltada para Rainbow. E segundo descries muito antigas, que ela encontrara na biblioteca do juiz, haveria tambm um poro. Cavado na rocha bruta, este seria o ncleo da resistncia a um ataque violento. A ltima barreira, depois que a parte de cima fosse invadida.
	Devo procurar por um tnel  ela concluiu, em voz alta.  Pois minha bisav no se deixaria aprisionar no fundo de sua fortaleza, sem a opo de uma rota de escape.
A hiptese fazia sentido.
Mas por onde comear a busca?
Talvez houvesse um alapo, na sala ou na cozinha, que conduzisse ao poro. L, um vo devidamente disfarado encobriria o incio do tnel.
	E isso!  ris exclamou, satisfeita com o raciocnio.
Movendo-se cautelosamente, ela comeou a remover pedras
e paus, arbustos e pedaos de madeira que o tempo no conseguira corroer por inteiro.
Passou a tarde em meio a esses afazeres, parando vez por outra para tomar um gole de suco, gua, ou simplesmente para descansar  tnue sombra do buggy. No se lembrou nem mesmo de comer, pois no sentia fome.
O trabalho era extenuante e parecia no conduzir a lugar algum. Mas ris persistia, cheia de esperana e determinao.
O sol se punha quando ela julgou vislumbrar as paredes divisrias do poro, nitidamente marcadas nas laterais de pedra, agora livres dos escombros.
A incidncia de um raio de sol horizontal deu a ris a impresso de que a parede oeste perdia-se da linha sobre a qual fora projetada. Era como se de repente se desprendesse da casa, numa espcie de desmoronamento irregular.
Curiosa, ris aproximou-se ainda mais do local, observando-o cuidadosamente.
 Nada  constatou, aps um acurado exame.  Nenhum sinal, nenhuma pista.
Tudo no passara de uma simples iluso dos sentidos, provocada pelo crepsculo e pelas sombras das pedras que ris havia desprendido das runas.
Desanimada, ela encostou-se naquele amontoado de pedras, os braos soltos ao longo do corpo, os olhos semicerrados. De repente, sentiu um quase imperceptvel formigamento... Era como se um inseto levssimo se embaraasse na penugem de seu brao direito.
Abrindo os olhos numa sbita compreenso, ris observou o brao, apenas para comprovar o que tinha acabado de descobrir. No havia nenhum inseto ali. Mas os minsculos plos dourados de seu brao curvavam-se sutilmente ao sopro de uma brisa fria, que vinha de algum lugar do subsolo, e que era muito diferente do ar aquecido da superfcie.
Ela comeou a rir e ajoelhou-se, colocando o rosto na mesma altura onde o brao havia estado momentos antes.
Sim... Ali estava aquela pequena corrente de ar, como uma srie de filetes invisveis, vindos de um mundo subterrneo, oculto sob aquelas pedras.
Emocionada, ris fez uma prece por todos os que haviam habitado Shadow House. Depois, voltou para o buggy. O trabalho daquele dia havia terminado. No trajeto de volta a Felicity, ris sentia-se calma e confiante. E no era para menos, afinal, estava cada vez mais perto de seu objetivo.
A noite, sentada na varanda da casa de Lena, observando o cu repleto de estrelas, ris rememorava os acontecimentos do dia, com o corao pleno de esperanas.
Um vulto dobrou a esquina e caminhou em direo  casa. Era Adam... O corao de ris o reconheceu, antes mesmo de seus olhos.
Os passos leves daquele homem lembravam a flexibilidade e nobreza de um felino. Sentindo um princpio de vertigem, ris assustou-se, uma vez mais, com a reao de seu corpo  simples aproximao de Adam.
	Boa noite  ele cumprimentou-a, abrindo o portozinho baixo e entrando.
	Boa noite, Adam.
	Senti sua falta. Como foi a viagem?
ris sorriu, fitando-o com intensidade.
- Correu tudo bem, graas a Deus. No quer se sentar?
Ele acomodou-se numa cadeira de vime, perigosamente prxima  de ris.
Na penumbra da varanda, aspirando a brisa fresca da noite, ela se sentia como uma colegial recebendo a visita do primeiro namorado.
Tambm Adam estava tomado por uma forte emoo.
ris parecia mais bela do que nunca, ele constatava, com o corao aos saltos. O vestido de algodo, rosa-plido, ressaltava os contornos suaves do corpo que ele j sentira uma vez, de encontro ao seu.
	Posso lhe fazer uma pergunta, ris?
	Claro.
	Se no for muita indiscrio, gostaria de saber o que voc foi fazer em Carson...
	Verificar a consistncia de uma informao sua  ela respondeu, com um misto de humor e graa.
	No entendi.
	Lembra-se da histria que voc me contou sobre Shadow House?
	Era apenas mais uma, entre muitas...  ele justificou-se.
	E era real  ela afirmou.  Shadow House existiu mesmo, tal como o famoso ataque repelido por minha bisav e seus empregados.
	Como sabe disso?
	Li num jornal da poca. Foi uma emoo incrvel  ela confidenciou.
	Posso imaginar. E fico feliz por isso, ris.
	Obrigada.  Num tom firme, ela sentenciou:   l, em Shadow House, que encontrarei as provas necessrias para inocentar minha bisav. L, ou em lugar nenhum.
	Isso faz sentido. Mas conte-me, onde encontrou esse tal jornal que fala sobre Shadow House?
	Na biblioteca de um juiz chamado Gore Meredith. J ouviu falar dele?
	Sim. Gore Meredith descende de uma famlia de desbravadores. Seu pai conseguiu fazer uma boa fortuna. Mas alm de um garimpeiro de sorte, era tambm um homem inteligente. Assim, mandou os filhos estudarem na Europa. Um deles era Gore Meredith, o primeiro advogado nascido neste Estado. Famoso por sua integridade,  tambm um dos homens mais admirveis da atualidade, alm de presidente da Fundao Meredith, responsvel por vrias obras importantes em nosso pas.
ris sorriu, intimamente. Se Adam soubesse que a Fundao Meredith, atravs do velho juiz, havia se comprometido a construir um hospital em Felicity... E que ela fora a responsvel por isso!
	E como vo as prospeces?  indagou, mudando o assunto.
	O trabalho em si  rpido, mas at agora os resultados no tm sido l muito animadores.
	Lena me contou. Mas voc no deve desanimar, pois as chances de sucesso ainda so muito grandes.
: Eu sei.
	Agora sou eu quem gostaria de fazer uma pergunta...
	Pode falar.
	Diga-me, Adam, se esse projeto der certo... O que voc far com o dinheiro que ganhar? Pois voc ser um homem muito rico, se no me engano.
	No se engana  ele retrucou, sorrindo levemente. Depois, respondeu:  Quero uma vida confortvel, tal como eu teria em qualquer lugar, trabalhando em minha profisso de engenheiro. Pretendo me casar, constituir uma famlia, ter alguns filhos... E fazer brilhar sobre a terra a riqueza que se esconde sob ela.
Um silncio calmo caiu entre ambos. Parecia at que cada um havia escolhido aquele momento para acalentar seus sonhos mais ntimos.
	Quer dar um passeio?  Adam props, de repente. Gostaria de mostrar-lhe um coisa.
	Claro  ela concordou, curiosa.  A noite est fresca e agradvel.
Os dois desceram as escadas e ganharam a rua. A lua, em seu quarto crescente, assemelhava-se a um aro fino e dourado, num cu de estrelas que mais pareciam gemas preciosas.
ris e Adam caminhavam sem pressa, em silncio, gozando a paz da noite serena.
ris sentia-se em paz com o mundo, adaptada perfeitamente ao momento presente. Era como se aquele passeio, tal como a lua e as estrelas, fizessem parte de sua vida desde os tempos imemoriais. As pobres ruas de Felicity significavam mais para ela do que todos os lugares pelos quais havia passado, at ento.
	 aqui  disse Adam, detendo-se em frente a um pequeno chal de madeira envernizada, cujo jardim exibia uma profuso de flores, arbustos e folhagens. Tanto verde parecia fora de propsito, naquela regio rida.
ris o olhava interrogativamente. E ele esclareceu:
Minha casa e meu escritrio... Constru este chal com as economias que trouxe de Boston. O terreno era de minha famlia. Vamos entrar, ris.	
Havia, na voz de Adam, uma certa timidez que comoveu ris. Ento ali era o lar daquele homem forte e decidido, que estava dedicando sua vida a um empreendimento quixotesco... Ele entrou na frente, caminhando pela trilha de cascalho que ligava o jardim gramado  varanda do chal.
Como conseguiu...  ris interrompeu-se.  Alis, como consegue manter essa grama to verde?	
Adam riu, lisonjeado. E ela estremeceu de emoo diante daquela singela demonstrao de alegria. Aquele homem possua uma pureza de alma que a fascinava.
	Nos fundos do terreno h um poo, que foi muito til durante uma das mais terrveis secas que essa regio j sofreu. Mas sua gua  intragvel. No serve para beber, nem para qualquer outra utilizao domstica.
	Aposto que  ideal para regar as plantas  concluiu.
	Exatamente. Quer ver como funciona?
	Claro  ris o seguiu.
Contornando a graciosa construo em madeira, Adam mostrou-lhe uma pequena torre de cerca de trs metros, tendo ao alto uma hlice de madeira, que girava lentamente ao sabor da brisa.
	Com esse equipamento, consigo trazer  superfcie um constante fluxo de gua, que escorre sem cessar entre as plantas do jardim. Trata-se de um luxo que me custou muita imaginao, trabalho e pouco dinheiro.
Adam parecia um adolescente mostrando o carro novo  namorada, ris pensou, com ternura. Ele estava orgulhoso e tinha razo para tanto. Afinal, seu engenho havia produzido uma espcie de ilha verde no centro daquela paisagem inspita.
	Futuramente farei um pomar, dobrando a vazo do poo. Mas agora vamos entrar, ris. Quero que conhea o escritrio e o resto da casa.
Adam conduziu-a at a varanda e, abrindo a porta, deu-lhe passagem.
ris entrou numa pequena sala, que dava acesso a um salo, bem maior, que tomava todo o corpo da casa. Este era dividido em vrios ambientes, por muretas baixas, de tijolos  vista. Na ltima dessas divises, ficava a cozinha.
	Vou tomar um cerveja  disse Adam.  Voc me acompanha?
	Sim.
Adam serviu a bebida gelada em canecas de loua. Em seguida levou ris at o escritrio, separado do grande salo por uma porta.
Surpresa, ris reparou na incrvel organizao que ali reinava. Os mapas pendurados nas paredes, com minsculas ban-deirolas vermelhas marcando a localizao das minas, as estantes de madeiras com muitos livros e tratados sobre minerao, os pesados volumes do cdigo de leis do Estado de Nevada sobre o assunto, a mquina de escrever, os arquivos... Tudo na mais perfeita ordem.
	Ningum supe que exista um escritrio desse tipo, aqui em Felicity  ela comentou, sinceramente admirada.
Com um gesto largo, que parecia abranger todo o ambiente, Adam comentou:
	No princpio, isso causou a maior sensao. Inclusive, ajudou-me a convencer os moradores da seriedade de meus propsitos. 
	E no  para menos  ris assentiu, com um sorriso, ento reparou numa espcie de cartaz, aberto sobre uma mesa, a um canto.  O que  isso?  perguntou, curiosa.
	Uma fotografia desta regio, feita por um satlite  Adam respondeu.  Eu queria mesmo lhe mostrar...
Aos olhos leigos de ris, o cartaz pouco significava, alm de um quadro pitoresco, retratando formas bastante interessantes. Mas, para Adam, a foto continha informaes valiosas.
	No vou aborrec-la com detalhes tcnicos, mas... Veja isto.  Ele apontava para uma zona de colorao cinza-chumbo,  esquerda da foto.
	O que significa?  ris quis saber.  Que local  este?
	Rainbow... A rea quatro. Olhe.  O dedo indicador de Adam pousara sobre uma minscula mancha preta.
	Desculpe, mas no entendo nada.
	Shadow House est no centro desta mancha.
	E o que isto significa?
	Que foi construda sobre uma mina antiga. Ou ento que uma mina foi cavada sob a casa.
ris sorriu, feliz. O que Adam dizia vinha de encontro  descoberta ela que fizera,  tarde, ao sentir a aragem fria que vinha do subsolo.
	No quero ser ingrata, mas a verdade  que descobri a entrada da mina hoje  tarde, em Rainbow  ela revelou.
Adam fitou-a, admirado.
	E como aconteceu?
	Bem, depois que confirmei a existncia de Shadow House, desenvolvi uma teoria.
	Qual?
	A de que minha bisav no construiria uma fortaleza, sem uma... digamos... sada de emergncia. E o que seria essa rota de fuga, seno o aproveitamento de uma antiga mina, j esquecida pelos moradores da regio?
Voc tem razo. A rea quatro, que  como chamamos a regio em torno dos escombros de Shadow House, foi a pri
meira a ser explorada, no passado. Os garimpeiros logo a abandonaram, por uma rea mais distante, onde o ouro podia ser encontrado com maior facilidade. Levando esse pensamento adiante,  fcil deduzir que os garimpeiros da poca esqueceram que tinham deixado para trs alguns veios pouco explorados.
	Portanto,  nessa rea que voc deposita suas maiores esperanas de sucesso  ris concluiu.
	Sim... E por coincidncia, essa  a rea onde voc procura provas de que sua bisav no agiu de maneira covarde, quando a peste assolou a regio.
Ambos se olharam longamente, compreendendo a gravidade da situao.
	Meu tempo  curto, no?  disse ris.
	Infelizmente, sim. Eu tinha esperanas de que as amostras colhidas na rea trs fossem boas. Claro que no deixa
ramos de explorar a rea quatro, mas isso poderia esperar algum tempo...
	Entretanto, as amostras da rea trs revelaram-se frustrantes...  ris comentou, depois de sorver um pequeno gole de cerveja.
	Exato  Adam confirmou.  Eu sinto muito.
	Ningum sente mais do que eu.
	Quer uma ajuda?  ele ofereceu, de sbito, ris meneou a cabea, em sinal de negao:
	Agradeo sua boa vontade, mas acho que vou seguir sozinha. Voc  um homem muito ocupado e mal tem tempo para cuidar dos assuntos de sua empresa...
	Tem razo. Mas eu me preocupo com voc, sabe? Desobstruir uma galeria, tal como voc est fazendo nas runas de Shadow House,  um servio pesado e muitas vezes perigoso.
	Prometo que serei cuidadosa. Agora, se no se importa, gostaria de voltar para a casa de Lena. Tenho de acordar muito cedo, amanh.
	Vou lev-la at l  Adam se disps, terminando sua cerveja.
	No  preciso  ela recusou, gentilmente, caminhando em direo  sada.  Sei o caminho e, alm do mais, voc tambm precisa descansar. Obrigada pelo passeio.  Partiu, antes que Adam insistisse em acompanh-la. Pois no conseguiria dizer no pela segunda vez.

CAPITULO VII

Foi somente no dia seguinte que ris entendeu o oferecimento de Adam, para ajud-la.
Remover as pedras que bloqueavam a entrada do tnel parecera, a princpio, um trabalho fatigante mas possvel. Logo de incio ris compreendeu o quanto era difcil: para cada pedra removida, outras trs ou quatro desabavam, ocupando seu lugar.
Pacientemente, ela insistiu na tarefa. E compreendeu que precisaria de um artifcio, para lev-la adiante. Havia pedras grandes e pesadas, que s poderiam ser deslocadas com o auxlio de uma alavanca.
Conseguir uma madeira forte e resistente no foi muito fcil, mas ris por fim encontrou-a. E retomou o trabalho, um pouco mais confiante. O mtodo estava surtindo efeito.
Por volta do meio-dia, o resultado dos esforos de ris j aparecia. Satisfeita, ela fez uma pausa para almoar. Estava suja, com o corpo dolorido, e exausta.
Havia aprendido um truque com os moradores da regio. E agora levava, no buggy, uma pequena lona. Estendida a partir do pra-brisas e depois presa a duas varas fincadas no cho, a lona formava uma ilha de sombra, onde ris podia descansar, sempre que necessrio.
Depois de saborear um fil de peixe com salada de legumes, com um bom copo de suco de laranja, ris deitou-se no cho, apoiando a cabea sobre a frasqueira e fechando os olhos.
O silncio em torno era repousante. O deserto tinha certas belezas que as pessoas acostumadas a paisagens menos ridas custavam a perceber.
ris ia aos poucos deixando-se ganhar pelas infinitas nuances da paisagem, pelas variaes que o sol em movimento causava sobre as dunas e pedras. O vento, quando brando, nem sempre era quente, como ris imaginara a princpio. Dependia da di-reo de onde ele soprava. Naquele dia, particularmente, a brisa que vinha do norte era muito agradvel.
Embalada por essas doces sensaes, ris adormeceu.
Quando abriu os olhos, levou algum tempo para reconhecer a paisagem em torno, lembrar-se de onde estava e qual era seu objetivo, ali.
Erguendo-se tomou um gole de gua do cantil e retomou o trabalho. O tempo corria, veloz. E ela precisava venc-lo.
ris levou quatro dias para encontrar a entrada do tnel, ou melhor: da velha mina sobre a qual Shadow House fora erguida h tanto tempo. No quinto, conseguiu abrir, entre os escombros, um espao que lhe permitia entrar, com segurana. Seu maior medo era que ocorresse um desmoronamento. Por isso tomou todas as precaues necessrias, escorando a entrada com pedras e madeiras.
Foi durante a tarde que, com o corao aos saltos, ela colocou um capacete, pegou a lanterna e, levando apenas o cantil, aprofundou-se na escurido da mina.
A entrada era estreita e baixa, mas logo se abria num salo grande, de onde partiam trs outros tneis.
Iris logo entendeu o que teria de fazer: explorar cada tnel.
	E vou comear pelo da esquerda  decidiu.
O som de sua prpria voz assustou-a. Era abafado e surdo, ela constatou, tomada por um sentimento de profunda solido. Mas a perspectiva de alcanar seu objetivo deu-lhe coragem. Mentalmente, ela fez uma prece e avanou pelo tnel, guiando-se pelo facho de luz da lanterna.
O tnel era bastante irregular. Por vezes tornava-se estreito, a ponto de dificultar a passagem de ris. Em outras, alargava-se em pequenos sales. O teto baixo obrigava ris a se abaixar em certos pontos.
Num dado momento, o tnel abriu-se numa bifurcao.
	E agora?  ela se perguntou, num sussurro. E novamente optou pelo caminho da esquerda.
ris no saberia dizer por quanto tempo j havia caminhado.
Seu relgio de pulso havia ficado no porta-luvas do buggy. E ela perdera a noo do tempo.
Uma nova bifurcao apresentou-se, um pouco mais alm. Obedecendo  regra que havia estabelecido, ela continuou seguindo pela esquerda.
A certa altura, uma pedra deslocada pela passagem de ris, caiu bem atrs dela, provocando um rumor surdo e assustador em meio ao silncio.
Assustada, ris voltou-se bruscamente, batendo com a lanterna na parede spera da mina. Ainda acesa, a lanterna escapou-lhe das mos e rolou pelo cho, apagando-se.
Trmula, naquela escurido absoluta, ela abaixou-se e comeou a engatinhar pelo cho, tateando-o, at encontrar a lanterna.
No foi difcil compreender que a lmpada havia se espatifado, junto com o vidro que a protegia.
Uma sensao de terror apossou-se de ris. Ela estava no fundo da terra, sozinha e sem uma fonte de luz. Tomando o cantil, bebeu sofregamente uma boa dose de gua, que deu-lhe um pouco de-calma para refletir e tomar uma deciso.
 Vou caminhar lentamente, sempre apalpando a parede da direita. Quando chegar s bifurcaes, dobrarei novamente. E assim por diante, at conseguir sair da mina  disse, em voz baixa, lutando para reter a coragem que ameaava abandon-la.
Mas aquele percurso sob a terra, na mais completa escurido, parecia interminvel. Pensamentos confusos, medo, uma vontade incontrolvel de chorar... Tudo isso assaltava ris, em seu trajeto.
Nunca, em toda a sua vida, ela sentira um pnico to absoluto. A sensao de abandono e solido era insuportvel. Mesmo assim ris continuava a caminhar, p ante p, enquanto seu corao pulsava acelerado pelo medo, a ponto de sufoc-la.
Depois de um tempo que mais pareceu uma angustiante eternidade, ris sentiu a parede se abrindo,  direita. Uma exclamao rouca brotou-lhe da garganta.
Finalmente havia sado num dos pequenos sales. Agora, faltava percorr-lo lentamente, at encontrar o salo maior, onde os trs tneis se iniciavam.
Foi nesse momento que ela escutou algo semelhante a uma respirao entrecortada, um rudo de patas macias... E deteve-se, congelada pelo medo. Sua imaginao estaria lhe pregando peas? Perguntou-se, horrorizada.
Mas no... Pois podia ouvir novamente o resfolegar rpido de um animal subterrneo, que parecia vir em sua direo. O som das patas sobre os pedregulhos do solo estava cada vez mais ntido... E prximo!
Uma sensao de vertigem a assaltou. Mas ris no podia se dar ao luxo de fraquejar, naquela hora crucial. Tomando nas mos o cantil que levava a tiracolo, preparou-se para se defender. Ento sentiu, de encontro s pernas um focinho mido. E gritou.
A luz de uma lanterna cegou-a momentaneamente. Uma voz masculina, ergueu-se em meio  escurido, ordenando:
	Para trs, Kima.
Chorando, ela reconheceu a voz de Adam e correu em sua direo, aos tropeos.
No instante seguinte, ele a tomava nos braos.
	Fique tranquila  recomendou, num tom suave.  Est tudo bem, agora.
Mas a crise, que ris vinha tentando conter desde em que se vira soterrada na mina, finalmente dominou-a.
Embora Adam a mantivesse abraada de encontro ao peito, ela balbuciava frases desconexas, entre lgrimas e um tremor que era quase uma convulso. Beijando-a nos cabelos, na testa, no rosto, Adam continuava a confort-la. Por fim ela comeou a se acalmar.
	Minha lanterna...  ela repetia, com voz dbil.  Que brou. Caiu no cho e quebrou...
	No faz mal  ele respondia, beijando-a ternamente.
De sbito, ris compreendeu que devia sua vida quele homem. Que na verdade ele sempre estivera em sua mente, desde o instante em que o conhecera.
Num transporte brusco de medo ao desejo, ela entreabriu os lbios para receber um novo beijo de Adam, no um beijo de conforto, mas de paixo... Pura paixo! Apertando-o contra si, sentindo-se tomada por uma forte emoo que j nada tinha a ver com o pnico de momentos atrs, ela continuava a beij-lo, com urgncia e ardor.
Foi Adam quem refreou aquele momento sensual totalmente fora de propsito... E o fez a muito custo.
Estava to excitado, que mal podia falar. Mas conseguiu afastar-se o suficiente, para readquirir um mnimo de equilbrio.
O cantil de ris havia cado no cho. Adam abriu-o e, sem pensar duas vezes, derramou bastante gua sobre a cabea de ris, reservando apenas um pouco para que ela bebesse.
Tome, bem devagar...  recomendou, num tom terno e a um s tempo firme.
Docilmente, ela obedeceu. Agora respirava de maneira mais calma e parecia menos descontrolada.
	Se no fosse por Kima, no sei como eu conseguiria ach-la, entre tantas galerias  disse Adam, aps um longo silncio.
	O que voc est fazendo aqui?  ris perguntou, sentindo-se bem melhor.
	Vim demarcar o local das sondagens e, como no a vi do lado de fora, resolvi entrar.  Ele sorriu, aliviado.  Felizmente voc est bem.
	Foi horrvel, Adam  ela murmurou, com um profundo suspiro.
	Eu sei. At mesmo as pessoas acostumadas a trabalhar em minas s vezes sofrem crises de pnico. Ficar sob a terra causa estranhos efeitos sobre os nervos.
	 verdade  ris assentiu, afastando os cabelos molhados do rosto. E ento seus olhos fixaram-se em Kima, sentada a poucos metros de distncia, com a lngua pendente e uma expresso carinhosa no nobre perfil canino.
Perto do terror que havia sentido alguns minutos atrs, o trauma com relao aos ces parecia remoto e inconsistente, ris pensou.
No fora apenas Adam, mas tambm Kima quem salvara sua vida, ela concluiu. Aproximando-se do animal, ris estendeu a mo num gesto lento, pousando-a sobre a cabea de Kima. Notou, surpresa, que o plo era sedoso e macio ao tato. E ento deixou que a mo deslizasse pelo dorso da cachorra, indo e voltando numa carcia leve.
Kima moveu a cabea e lambeu a mo de ris. Era seu modo de demonstrar carinho. Comovido, Adam observava aquele milagre. Lgrimas de pura emoo corriam pelo rosto de ris, libertando-a do antigo trauma.
	Voc vai nos levar para fora daqui, no ?  ela disse, baixinho, continuando a acariciar Kima.
	Sim  disse Adam.  Vamos, Kima.
A bela husky-cross endireitou o corpo esguio e comeou a andar, guiada por seu faro e forte sentido de direo. Os humanos a acompanhavam.
Pouco depois os trs saam da mina. O sol j se punha no horizonte.
Tomada por uma forte sensao de alvio, ris contemplou a paisagem em torno, banhada pelas luzes do crepsculo. A viso do deserto inspito jamais lhe parecera to bela.
	Voc est bem?  A voz de Adam tinha um misto de camaradagem e afeto, que comoveu-a profundamente.
	Sim. E graas a voc e Kima. Obrigada, Adam.
	Acha que conseguir dirigir de volta a Felicity?
	Com certeza.
	Bem, ento eu j vou indo. At mais, ris. Cuide-se bem.
Adam e Kima se afastaram em direo ao jipe Esmeralda, parado a poucos metros de distncia.
Por um longo tempo, ris ficou observando o veculo afastar-se pela estrada, levantando uma nuvem de p.
Jamais se esqueceria dos beijos trocados com Adam no interior da mina. Podia, agora mesmo, sentir novamente a respirao ansiosa de Adam, sua fora e bondade mescladas ao mais louco desejo.
Foi naquele instante que ris decidiu parar de lutar contra seus sentimentos. O que sentia por Adam tinha um s nome e vrias definies: era amizade, admirao, respeito, afeto e desejo... Mas resumia-se na palavra amor.
Os dias sucediam-se numa sequncia tranquila, sem grandes acontecimentos.
ris aprendera muito, com a chocante experincia que sofrera. Melhorara sensivelmente os equipamentos. Comprara um novo capacete, que tinha um farolete fixado no alto, bem como uma outra lanterna, mais potente do que a anterior. ris usava-a presa a um cordo, que pendia de seu pescoo. Assim, livrava-se do perigo de deix-la cair e ficar sem luz. Mas ainda que isso acontecesse, sobrava-lhe o farolete.
Como o lendrio Teseu no labirinto de Creta, em busca do Minotauro, ela sempre carregava consigo vrios novelos de ni-lon, que prendia nas paredes,  entrada dos tneis, desenrolando-os  medida que avanava.
Havia mapeado o interior da mina minuciosamente, com o auxlio de uma bssola. E, mais do que tudo, habituara-se ao escuro total,  solido das galerias, ao silncio absoluto que reinava nas entranhas da terra.
Em poucos dias ris, havia concludo que o tnel da esquerda no a levaria a nada. Decidir entre o do centro e o da direita foi difcil. ris acabou optando pelo ltimo, por um simples palpite. E continuou corajosamente em sua explorao.
Certa tarde, ao examinar uma pequena passagem que parecia subir em direo  superfcie, ela deparou com algo que fez seu corao palpitar de esperana. Com a respirao suspensa, dirigiu o facho da lanterna em direo a algo que parecia um pedao de tecido coberto de poeira. No se tratava do rstico pano das vestes de um mineiro e sim de uma espcie de seda lils, que ris ergueu do solo, temendo que ele se desfizesse entre seus dedos ansiosos. O tecido estava enrijecido e spero, mas ainda resistente. O ar seco e imutvel daquele tnel man-tivera-o quase em perfeitas condies.
Aquela era a primeira prova viva que ris conseguia, desde o incio da pesquisa. Sua bisav estivera ali, naquele local. O velho pedao de tecido era a evidncia de que ela precisava.
Guardando-o cuidadosamente na mochila, ris continuou a subir pela passagem, to estreita que mal dava para seu corpo pequeno, at que um raio de luz feriu seus olhos. Havia chegado  superfcie pela rota de fuga que os moradores de Shadow House usavam para fugir dos inimigos.
A alegria de ris era tanta, que dava-lhe vontade de cantar e danar. Era assim que ela se sentia, ao sair da mina. Por isso no estranhou a presena de que um grupo de mineiros, a poucos metros de distncia. Com uma expresso amvel, aproximou-se para cumpriment-los.
Os homens reagiram surpresos diante da sbita presena de ris. Imediatamente ela reconheceu George Earley, Tony Killian e os outros habitantes de Felicity, com quem estivera logo ao chegar, no Saloon Aperto de Mos.
O que est fazendo aqui, senhorita?  perguntou Killian, agressivo como sempre.
	Acabo de encontrar a sada de emergncia que minha bisav usava, na poca em que morou em Shadow House.
Uma exclamao de espanto e admirao correu entre os homens. Para eles, as histrias sobre A Noiva do Arco-ris no passavam de uma lenda. George Earley, o mais educado e esclarecido de todos, fitou ris com curiosidade.
	De onde a senhorita surgiu, afinal?
	De detrs daqueles arbustos, atravs de um tnel que parte do interior da mina.
Todos correram para l. A sada do tnel, oculta entre os arbustos, era quase invisvel. ris indicou a entrada e um dos homens intrometeu-se na passagem estreita, com grande dificuldade.
	 mesmo  exclamou, aps alguns minutos de forte ex pectativa.  Trata-se de uma galeria muito antiga.
	Que vai sair naquela elevao, de onde se pode avistar toda Rainbow  ris completou, triunfante.
	E da?  Tony Killian retrucou, num tom rude.  O que isso significa?
	No seja estpido, rapaz.  George Earley veio em socorro de ris.  Essa passagem prova que a av dessa moa...
	Bisav  ris o corrigiu.
	Certo. Que a bisav dela morou mesmo em Shadow House.
	E que estou procurando no lugar certo  ris afirmou.
Veja isto, senhor.
Num gesto teatral, ela abriu a mochila e retirou o precioso pedao de seda que havia encontrado, segurando-o como se fosse uma relquia.
Os homens inclinaram-se, espantados, para observar o tecido. Alguns quiseram toc-lo, mas ris os impediu.
	Isto parece um pedao roupa de um mineiro?  perguntou.
	No  disse um dos homens, francamente impressionado.
	, com certeza, um pedao de vestido de mulher.
	E por acaso os senhores acham que esse tecido pode ter vindo de um loja de Carson City, ou de Tonopah?
	Creio que no  disse outro homem.  Tambm no d para ter certeza, pois esse pano a  muito velho.
	Pois eu digo que esta seda era parte de uma roupa de minha bisav  ris sentenciou, confiante. - Achei-o no interior desse pequeno tnel, a uns trinta metros da sada.
	Puxa!  exclamou George Earley.  Ento a senhorita est na pista correta.
	Ser?  Tony Killian contraps.  Um simples farrapo no pode ser considerado como uma prova verdadeira.
	Mas ento, como  que ele foi parar ali?  um outro homem argumentou.
As opinies se dividiam. Mas ris sentia claramente que todos estavam mais ou menos convencidos de que ela falava a verdade. Muitas coisas haviam se passado, desde que chegara  Felicity.
Para o povo da cidade, ris no era mais uma desconhecida, intrometendo-se em assuntos que no lhe diziam respeito. Ao contrrio: era a bisneta de A Noiva do Arco-ris, hspede de Lena, amiga de Adam, enfim... uma pessoa familiar, que despertava simpatia- e curiosidade. Alguns habitantes tomavam seu partido, outros no. Mas todos admiravam sua luta e respeitavam seu objetivo, que era sem dvida nobre e honesto.
Tony Killian era a nica exceo, pois continuava a trat-la com hostilidade. Alis, ele parecia guardar uma carta na manga. Pois no teve o menor escrpulo em arrebatar o precioso tecido das mos de ris, amarfanhando-o entre os dedos e rasgando-o em pedaos.
	No faa isso  ela gritou, tarde demais.
	Escute aqui, mocinha...  Ele a encarou, com ar de desafio.  Sua estria  muito bonita, prpria para ser contada em volta de uma fogueira, para um grupo de crianas bobas e ingnuas. No sei o que voc pretende com toda essa conversa idiota sobre sua bisav, mas o fato  que seu tempo acabou.
Estamos aqui para marcar o lugar das primeiras perfuraes. E seu tnel precioso vai virar poeira, debaixo das brocas.
Perplexa, ris lanou um olhar para os homens em redor. Mas todos baixaram as cabeas.
Era a condenao geral, ela pensou. Embora aquela gente a tratasse com simpatia, a verdade estava muito clara: seu tempo se esgotara.
As lgrimas fluram aos olhos azuis-turquesa de ris, que: caminhando em direo a Tony Killian, curvou-se para pegar  do cho os restos da seda em pedaos.
Ele comeou a rir, com evidente desprezo. A reao de ris foi surpresa, at mesmo para ela. Erguendo-se num salto gracioso e gil, ela atingiu Tony Killian na boca.
No foi a fora, e sim a pontaria daquele soco certeiro, que rasgou o lbio superior de Tony Killian, fazendo o sangue vermelho jorrar, escorrendo pelo queixo e pingando na camisa suja de poeira.
As gargalhadas soaram, depois de um momento de espanto. Alguns homens se curvavam, de tanto rir. Outros sapateavam no cho, divertidos, assoviando como doidos. Em poucos instantes formou-se um coro de vozes excitadas, provocativas, selvagens...
	A mocinha acertou o vilo!  exclamavam alguns.
	Uau! Que fiasco, Tony Killian!
	Ser nocauteado por uma doura dessas... Que vergonha!
	A florzinha feriu o abutre!
	A bela derrubou a fera!
Tony Killian passou a mo pelo lbio atingido e contemplou os dedos sujos de sangue com uma expresso confusa. Depois, seu rosto contorceu-se numa expresso de clera., E ele avanou para ris, que o fitava aterrorizada.
	Pare com isso, rapaz  Adam ordenou, aproximando-se. Sua voz soava imperiosa, elevando-se por sobre as exclamaes do grupo e detendo a fria do homem que avanava.
	Essa mulher...  Tony Killian balbuciou.
	Venha para c, ris  disse Adam, num tom surpreendentemente calmo.  E quanto a vocs... voltem a seus afazeres.
	Eu no pude impedir  George Earley desculpou-se, com os olhos fixos nos de Adam.  Foi tudo muito rpido.
	Tudo bem, George. Retome o trabalho, por favor.
Enlaando Iris pelos ombros, ele conduziu-a para longe do grupo.
	E verdade?  ela perguntou, trmula.
	O qu?
	Que vocs vo comear as prospeces nessa rea?
	Infelizmente, sim.
.  Oh, meu Deus!  Foi tudo o que ris conseguiu dizer.

CAPITULO VIII

	Desistir assim, a um passo do objetivo...  doloroso demais.
Iris no se conformava com a notcia que havia recebido. Desarmando a lona e recolhendo suas coisas espalhadas em torno do buggy, el era a prpria imagem da decepo e do inconformismo.
Adam a observava, penalizado. Mas nada podia fazer. A rea quatro tinha de ser explorada. As mquinas j estavam a caminho e o trabalho teria incio na manh seguinte.
	Ns fizemos um trato, ris  ele disse, num tom brando.  Ser que preciso lembr-la disso?
	No  ela respondeu, derrotada.  Claro que no. Mas  muito duro chegar to perto de uma resposta definitiva... Para descobrir que tudo foi em vo.
Adam assentiu, com um suspiro. ris estava magoada e, dessa vez, ele nada podia fazer para ajud-la.
	O mundo no vai acabar por causa disso  ele tentava consol-la... Em vo.  Quem sabe dos desgnios da sorte, ris...?
	A mim s me resta fazer as malas e partir de Felicity.
No vou ficar por aqui para ver minhas esperanas soterradas pelas suas mquinas.
	Por favor, no se volte contra mim. Voc sabe muito bem que tentei apoi-la, na medida do possvel.
ris fechou os olhos por um instante, considerando aquelas palavras.
Adam tinha sido um grande aliado, essa era a verdade. Fizera de tudo para ajud-la, dando-lhe cobertura na cidade, arranjando-lhe o buggy, as ferramentas necessrias ao trabalho... At mesmo salvara-lhe a vida, quando ela se perdera na mina.
	Desculpe  ela pediu, com um suspiro.  Eu no quero ser injusta com voc, que tanto me apoiou.
	Ora, sua reao  compreensvel  ele ponderou.  Qualquer pessoa, em seu lugar, ficaria frustrada.
ris continuou a carregar o carro, com as ferramentas e outros materiais. Ento sacudiu a poeira das roupas, passou as mos pelos cabelos loiros, presos num rabo-de-cavalo, e fitou Adam com amargura.
	Eu j vou. Aparea na casa de Lena, para nos despedirmos.
	Mas voc pensa em partir assim, de repente...?
	O que mais tenho a fazer em Felicity? Aceitar a compaixo das pessoas, pelo meu fracasso?
	Ei, no seja to amarga, ris. Voc fez amizade na cidade e, exceto por aquele idiota do Tony Killian, as pessoas lhe querem muito bem.
ris sentiu os olhos rasos de lgrimas. Teve de apertar os maxilares com fora, para no desatar num pranto sentido.
	Eu no devia ter agredido Tony Killian  ela se lamentou.  Estou to envergonhada pelo que fiz.
	Aquele cretino no merecia outra coisa  Adam opinou, irritado.  Se no fosse pela sua mulher e filha, eu no hesitaria em coloc-lo para fora de nossa empresa. J estou farto dele.  Mudando de tom, acrescentou:  E ento, por que no se demora mais tempo, em Felicity?
	Agradeo suas palavras bondosas, Adam. Mas pretendo partir amanh cedo. Deixarei suas ferramentas com Lena e, o buggy, em Tonopah. Acha que o estacionamento da prefeitura  um bom local para guard-lo?
	Prefiro que voc o deixe na locadora de veculos Aurum, que fica no centro da cidade.
	Eu conheo. Afinal, foi l que aluguei um carro, quando vim para c.
Adam assentiu com um gesto de cabea:
	Irei buscar o buggy, qualquer dia desses.  Tirando o chapu, passou o leno pelo rosto. Sentia um profundo carinho por aquela mulher valente e determinada, que lutara at o fim.  Passarei na casa de Lena, para me despedir de voc.
Agora, tenho de voltar ao trabalho.
	Pode ir tranquilo, Adam. E obrigada por me livrar de mais um apuro. Aquele brutamontes ia me agredir, se voc no chegasse a tempo.
	No creio. George Earley e mais uns trs ali presentes no teriam permitido. Mesmo assim, conserve-se longe de Tony Killian. Ele tem um carter pssimo.
Aproximando-se, Adam beijou-a em ambas as faces. ris entrou no buggy e acionou a partida.
Adam ficou parado, vendo-a sumir na poeira da estrada. Depois, caminhou lentamente em direo aos homens que o aguardavam.
Nunca imaginara que o projeto que idealizara por tanto tempo pudesse causar sua prpria infelicidade. Entretanto, era exatamente isso que estava acontecendo. O sucesso de sua empresa era a runa do sonho de ris. E agora ela ia partir... Adam concluiu, com um profundo sentimento de angstia.
Chegou at o grupo e ordenou secamente:
	Ao trabalho pessoal. Vamos ver se esta maldita rea compensa ou no os nossos esforos.
Em Felicity, na casa de Lena, o clima era triste e um tanto pesado. A inesperada partida de ris havia contaminado o ambiente com uma sombra de amargura.
Samantha, a garotinha que abordara ris em seu primeiro dia naquela casa, estava presente. E at ela parecia inconsolvel:
	Por que voc vai embora?  perguntou, pela dcima vez. Estava ofendida e no se conformava com as explicaes de ris.
	Eu j lhe disse que no tenho nada a fazer em Felicity, Samantha.
	Mas voc tinha, at hoje...  a menina insistia.  Por que no fica? Voc no gosta mais da gente?
	Claro que sim, meu amor. Mas preciso voltar a Minneapolis, para retomar meu emprego, minha casa, os amigos...
Ignorando a justificativa de ris, a menina continuava:
	Voc bem que podia dar aulas na escola daqui. Temos s duas professoras e elas no sabem muita coisa...
Lena mantinha-se em silncio. Era sua maneira de demonstrar a tristeza que lhe ia por dentro. Realizava as tarefas co-tidianas com preciso e eficincia, mas sem aquela fora vibrante que sempre a caracterizava.
	ris precisa partir, Samantha  ela disse, por fim.  Talvez um dia ela volte, para nos visitar.
Um raio de esperana brilhou nos olhos da menina.
	Voc vir mesmo, ris?
	Sim. Um dia... talvez!
Levantando-se do sof onde estava sentada, ris beijou a menina, acariciou de passagem os cabelos de Lena e subiu para o quarto. Precisava ficar a ss com sua mgoa e com o amargo sabor da derrota.
No conseguiu dormir, naquela noite. Por volta de uma hora da manh, ela continuava desperta, os olhos abertos em meio  escurido, os ouvidos atentos ao silncio das ruas desertas, onde os passos leves e decididos de Adam no soavam.
Sentindo-se ainda mais triste, ela encolheu-se na cama. Um sono intranqilo, povoado de imagens perturbadoras, veio colh-la no incio da madrugada.
No dia seguinte, ris arrumou sua pouca bagagem no buggy. Depois separou uma generosa quantia em dinheiro para Lena, que certamente a recusaria. Por isso, ris guardou as notas num envelope e deixou-o sobre a cama, juntamente com um bilhete de agradecimento. Depois, foi at a cozinha para despedir-se da amiga.
	Chegou a hora, Lena.
	Isso quer dizer que voc no vai ficar para o almoo...?
	Melhor no...  bobagem prolongar esse sofrimento ainda mais. D-me um abrao, minha querida amiga.
Foi um momento de grande emoo. Naquele pouco tempo de convivncia, ris havia aprendido a amar aquela mulher simples e bondosa, que a havia acolhido to bem.
	Voc  uma pessoa especial  disse Lena, com lgrimas nos olhos.  Eu nunca a esquecerei.
	Adeus, Lena. Muito obrigada por tudo.  Depois de beij-la carinhosamente, em ambas as faces, ris saiu.
Sem olhar para trs, acionou o motor do buggy e afastou-se da cidade, em direo  estrada deserta.
Parada na varanda, Lena a observava, indiferente s lgrimas que escorriam-lhe pelo rosto.
A viagem transcorria sem incidentes. ris tinha a ntida impresso de que estava fugindo de alguma coisa... A imagem de Adam Freemont. No quisera esper-lo naquela manh, pois sabia que talvez no conseguisse dizer adeus quele homem. Agora, ela deixava Felicity, com tudo o que isso significava.
Porm, por mais que quisesse se enganar, ris sabia que estava deixando para trs a oportunidade de ser feliz. Nunca mais encontraria algum como Adam, ainda que vivesse por cem anos.
Um pensamento inquietante brotou em sua mente conturbada: e se Adam lhe pedisse para ficar... O que ela diria?
Honestamente, ris no sabia responder aquela pergunta to simples. Seu corao apaixonado jamais esqueceria aquelas mos fortes e sensveis, os lbios quentes que sabiam beij-la to bem, os olhos azuis-cinzentos que a fitavam como lhe adivinhassem os mais ntimos segredos. A emoo de ser desejada por um homem como Adam era muito forte.
O buggy, que at ento corria bem, balanou de maneira irregular, desviando subitamente para a direita, junto ao acostamento, ris logo compreendeu o que acabava de acontecer: ela havia perdido a direo. Sua ateno estava voltada apenas para Adam e para a felicidade que um dia vislumbrara.
Com um profundo suspiro, ris diminuiu a marcha e parou.
Debruando-se sobre o volante, deixou que seu desespero se traduzisse em lgrimas e chorou amargamente. Por fim, sentindo o corao aliviado, pegou o cantil, lavou o rosto e sorveu a gua em grandes goles. Respirando fundo, concentrou-se na estrada e prosseguiu viagem.
Por volta de uma da tarde, ris chegou a Tonopah, sob um sol escaldante. Tinha que deixar o buggy na locadora de autos e alugar outro carro, para chegar a Carson City.
Ao estacionar o veculo empoeirado no ptio da locadora, ris sentiu que vrias pessoas a olhavam fixamente, acompanhando seus passos at o escritrio da agncia, que possua amplas janelas de vidro.
Era natural que chamasse a ateno, ela pensou. Na pequena e pacata Tonopah, a presena de algum desconhecido sempre causava uma certa sensao.
Mas ris no estava preparada para a efusiva recepo que a aguardava, no interior do escritrio.
A jovem recepcionista ergueu-se para abra-la, sorridente, numa cumplicidade que no tinha razo de ser. Outros dois funcionrios saram da sala contgua e vieram participar da homenagem, rodeando ris com evidente admirao, em meio! a palavras amveis e largos sorrisos. Por fim, o prprio gerente j da agncia saiu de seu gabinete e veio cumpriment-la.
	Parabns!  exclamou, efusivo.  A senhorita  o orgulho da regio.
	Os cartazes chegaram hoje, pelo correio. E j foram distribudos pela cidade  disse a recepcionista.
S ento os olhos caram sobre o mural da parede, onde um cartaz de papel couch brilhante retratava A Noiva do Arco-ris. Tratava-se de uma rplica, quase absolutamente fiel, do quadro que existia no saloon de Felicity.
Aproximando-se, ris observou que a noiva ali estampada no tinha o rosto de sua bisav, mas sim o dela. Com seu vestido multicolorido, o vu e a gargantilha confeccionada em ouro, prata e pedras preciosas, A Noiva do Arco-ris era... Ela! O fotgrafo canadense do estdio de Carson City fizera uma montagem perfeita. E o resultado ali estava.
A campanha do Turismo Histrico do Estado de Nevada fora deflagrada, ris concluiu. E ficou ainda mais surpresa quando a recepcionista comentou:
	Voc est em todos os canais de televiso, aqui no Estado, e nos principais do pas. Meus parabns.
Ainda no totalmente refeita, ris foi conduzida ao gabinete do gerente e tratada como uma espcie de celebridade.
Com excessiva gentileza, o gerente ofereceu-lhe um suco de lima. Estava sorvendo um gole, quando o telefone tocou, sobre a mesa. O gerente atendeu e em seguida passou-lhe o aparelho:
	 para a senhorita.
	Para mim?  ela repetiu, confusa, pegando o fone com um gesto automtico.  Al!
A voz de Adam soou, do outro lado da linha, fazendo seu corao pulsar acelerado.
	ris... Que bom que voc chegou. Estamos reunidos no Centro Comunitrio aqui de Tonopah, com os representantes de alguns investidores de Carson City. Eles querem conhec-la pessoalmente. Seu amigo Ivan, sobrinho do juiz Gore Meredith, est aqui. Voc poderia falar com ele?
	Claro  ela aquiesceu, num tnue fio de voz.
	Surpresa!  Ivan exclamou, com sua alegria habitual.  O projeto est indo de vento em popa, como voc pode ver.
	Ol, Ivan!  ela saudou o amigo, ainda confusa.  Acabo de chegar de Felicity e s agora fiquei sabendo do incio da campanha.
	Pois trate de ir para um hotel, tome uma boa ducha e depois venha para c.  Baixando a voz, confidenciou.  O hospital que voc tanto exigiu est na pauta de negociaes. No demore, ris  estava tentando  absorver todas  aquelas novidades, quando o gerente interrompeu-lhe os pensamentos:
	Srta. Merlin...?
	Sim?
	Como representante da Locadora Aurum, eu ficaria feliz se daqui por diante a senhorita usasse um de nossos veculos, permanentemente.  uma forma de agradecermos o que a senhorita e o governo do estado esto fazendo por nossa regio, que tanto necessita de progresso.
	 muita gentileza de sua parte, senhor...?
	Steam  ele se apresentou.  Mark Steam.
	Certo  ris assentiu.  Agradeo e aceito seu oferecimento. Mas tenho um contrato com a Fundao Meredith, para a qual cedi o nome A Noiva do Arco-ris, alm de minha prpria imagem. Portanto, pense duas vezes antes de utilizar-me para a propaganda de sua agncia.
O gerente ficou pensativo por alguns instantes e ento disse:
	Acabo de pensar numa frase: A Locadora Aurum apoia o retorno da Noiva do Arco-Iris. O que acha dela, senhorita?
ris riu, divertida, antes de responder:
	O senhor  rpido, alm de eficiente.
Ele sorriu e em seguida levou-a ao estacionamento, onde mostrou-lhe um luxuoso carro azul-gren.
	Este  meu veculo particular. Todos o conhecem, na cidade. Est me oferecendo seu prprio carro?  ris indagou, espantada.
	Sim. Esta  a verdadeira propaganda, direta e sem palavras. Todos sabero que a Locadora Aurum est ao lado de  A Noiva do Arco-ris, bem como das autoridades que apoiam a campanha... Entende o quero dizer, srta. Merlin?
	Sim.  ris aceitou as chaves que ele lhe estendia.  Puxa, esse mundo da publicidade  mesmo estranho...
	Eu o acho fascinante.  Assumindo um tom profissional, Mark Steam declarou:  A senhorita simboliza a primeira chance de recuperao econmica da regio, dos ltimos trinta anos. Se a campanha realmente resultar num fluxo turstico, tal como esperamos, teremos uma chance de recuperar o tempo perdido.
	  isso que desejo, sr. Steam  ris afirmou. Entrando no carro, sentou-se ao volante e partiu.
No hotel, que ris j conhecia, a recepo no foi menos calorosa, ris foi agraciada com a melhor sute disponvel. E o gerente fez questo de frisar que sua hospedagem seria gratuita.
Pouco mais tarde, sempre cercada pelo interesse e carinho da populao local, ela chegava ao Centro Comunitrio de To-nopah. Eram duas e meia da tarde. Estava muito bem vestida e sentia-se confiante. No queria pensar na frustrao de seu projeto... Ao menos no naquele dia, em que tantas coisas boas estavam acontecendo.
A emoo de rever Adam fazia seu corao vibrar de emoo. Ivan a aguardava junto  porta de entrada e abraou-a com muito carinho. Ambos sentiam-se como velhos amigos, cmplices naquele projeto que agora era uma realidade concreta.
	Voc conseguiu, Ivan  ela disse, com franca admirao.
	Ainda no cheguei exatamente onde queria. E para isso preciso de voc.
	Como assim?
	Alguns empresrios que resolveram apoiar a campanha, junto com o governo do Estado, esto reunidos aqui. Eles so de
Carson City e acabam de fundar um grupo chamado Silver-Gold Enterprises. O pessoal de Felicity tambm est presente, alm de vrias outras autoridades. Agora vamos entrar e convencer aquelas feras a soltar o dinheiro, j compraram a ideia da campanha.
A sala principal do Centro Comunitrio era ampla e bem iluminada. A grande mesa de reunies estava repleta de papis, pastas, calculadoras, mapas e outros documentos. Em torno dela, os representantes da Silver-Gold Enterprises j estavam acomodados. O grupo era formado por duas mulheres e dois homens.
A empresa de Felicity estava representada por Adam e mais dois homens que ris j conhecia. Um deles, o gentil George Earley, sorriu ao v-la.
Ali estavam, tambm, um assistente de Ivan e um dos advogados da Fundao Meredith.
A cidade de Tonopah estava representada pelo prefeito e pelo secretrio de turismo. Os homens se levantaram  chegada de ris, que sentou-se ao lado de Ivan e, por coincidncia, em frente a Adam Freemont.
Fitando-a no fundo dos olhos, ele sorriu docemente e curvou a cabea, num leve de cumprimento.
Iris foi apresentada a todos. E ficou impressionada ao saber que uma daquelas duas mulheres, muito jovem e de olhos frios, era a presidente da Silver-Gold Enterprises. A outra desempenhava as funes de sua secretria particular.
	Meu nome  Angela Raison  disse a jovem executiva.  Estava curiosa para conhec-la, ris... Posso trat-la assim, no  mesmo?
	Claro, Angela  ris assentiu, num tom polido.  Mas creio que minha presena nesta reunio deve atender a outros interesses, alm da mera curiosidade... Certo?
	Exato  Angela Raison concordou.  At o presente momento, tratamos de assuntos tcnicos. Agora, podemos falar de maneira mais direta.  Aps uma pausa de efeito, ela declarou:  A Silver-Gold no deve ser vista como um parente rico das empresas menores, do tipo que distribui dinheiro e caridade s populaes mais pobres. Ao contrrio: a empresa funciona como intermediria de capitais e interesses. Portanto, nosso objetivo  os grandes investidores, vendendo as aes de uma pequena empresa como a de Adam Freemont,  qual daremos o nosso aval e ofereceremos apoio tecnolgico.
	Em troca de uma significativa parte nos lucros, natural mente Adam apartou.
	 lgico  Angela prosseguiu:  Trata-se ento, de um empreendimento mltiplo. O Estado de Nevada cede a mquina de propaganda e as isenes fiscais de sempre. A empresa de Adam Freemont atua na rea executiva, extraindo e beneficiando a matria-prima. A Silver-Gold absorve esse material, convertendo-o em moeda viva atravs do mercado de aes.
	E a Fundao Meredith fiscaliza todo o processo, servindo de mediadora entre as partes  Ivan interveio.  E, alm disso, dar sua contribuio: arcar com uma parte das despesas do projeto, sob a forma de melhorias sociais na regio.
Angela concordou com um gesto de cabea e voltou-se para ris:
	Voc  uma ponta desse enorme iceberg... Alis, a ponta mais visvel, o smbolo da champanha de Ivan. O que esperamos de voc  um apoio total  campanha. Por favor, no se esquea de frisar, em suas declaraes pblicas, a importncia do lado histrico e turstico do projeto, que sem dvida render dividendos diretos s velhas cidades que um dia foram a rota do ouro e prata.
	Em resumo, o que Angela quer dizer  que precisamos de voc, ris, trabalhando lado a lado conosco  Ivan esclareceu.
	Mas em que consistiria minha participao, alm do que j fiz?  ris se posicionava.
	Dentro de trinta e cinco dias ser o aniversrio de Felicity, onde ocorrer uma grande festa, que ter a cobertura da mdia de todo o pas.  Ivan explicou.  A festa ter incio com um cortejo de carroes, simbolizando os antigos pioneiros. A cidade inteira ser transformada num palco, representando os gloriosos dias do passado, plenos de fartura. E a estrela do evento ser A Noiva do Arco-ris... Ou seja: voc.
	Certo  disse ris, surpreendentemente calma.  Mas serei noiva de quem?  Antes que Ivan respondesse, ela acrescentou:  Afinal, minha bisav s fez todo aquele alarde porque ia se casar com Wynne Rowland.
Todos os olhares convergiram para Adam Freemont. Belo e elegante em seu terno azul-marinho, os cabelos um tanto longos queimados pelo sol, os olhos azuis-cinzentos destacando-se no rosto bronzeado, de traos perfeitos... Era o noivo ideal. Disso, ningum duvidaria.
Um princpio de riso brotou nos lbios finos de Ivan. E isso foi uma espcie de sinal para que todos comeassem a rir, a princpio discretamente e, depois, de modo descontrado.
Adam corou violentamente e apressou-se a protestar:
	Um momento, pessoal... Sou engenheiro e minerador, e no um ator.
	H talentos ocultos que se revelam, diante das necessidades  Angela Raison sentenciou, num tom autoritrio.  Se voc aceitar, Adam, considerarei isso como um favor pessoal... Que naturalmente pretendo retribuir.
	Creio que Ivan seria muito mais indicado para fazer o papel de Wynne Rowland  ele ainda tentou argumentar.
Mas os protestos e incentivos continuavam a chover de todos os lados. Por fim Adam cedeu:
	Est bem. S espero que isso no tome demasiadamente meu tempo.
	No se preocupe  Ivan apressou-se a tranquiliz-lo.  Cuidarei de tudo para voc.
O clima srio da reunio tornara-se descontrado. ris resolveu colocar a questo que trazia pronta nos lbios, desde o incio.
	Ainda no ouvi ningum falar sobre a construo do hospital de Felicity. Quero crer que isso tenha acontecido apenas por culpa da euforia do momento e no por descaso.
Um silncio inesperadamente denso pairou sobre o ambiente.
	De que hospital voc est falando?  Adam indagou, surpreso.
	Nossa ris Merlin condicionou sua participao na campanha  construo de um hospital em Felicity  Ivan esclareceu, com um meio sorriso.
	Voc fez isso, ris?  Adam a fitava, perplexo.  E por que no me disse nada?
	Era uma esperana vaga, que s viria se efetivar com o sucesso das negociaes  ela explicou, modesta.  Na verdade, eu s despertei a ateno do juiz Gore Meredith para o assunto.
	No foi bem assim  Ivan discordou.  Voc conseguiu extrair uma promessa de tio Meredith... O que no  pouco.
Vrios olhares de admirao caram sobre ris, enquanto Ivan levantava-se e dirigia-se at o fundo da sala, rumo a uma espcie de pedestal, coberto por um tecido escuro.
Num gesto teatral, Ivan levantou o pano. Num impulso, ris ergueu-se e aproximou-se do pedestal a passos largos.
Esculpida em bronze, tal como ris havia exigido, uma bela placa trazia a seguinte inscrio:
Esta  a pedra fundamental da construo do primeiro Hospital de Felicity, doado  comunidade pelo Governo do Estado de Nevada, com o apoio da Fundao Meredith.
Tomada por uma forte emoo, ris sorria, contemplando a placa com os olhos rasos de lgrimas.
	Voc conseguiu  Ivan disse, baixinho.
	Parabns, ris.  Adam aproximava-se, igualmente comovido.  Voc  uma mulher incrvel. O terreno para a construo do hospital ser cedido pela empresa que dirijo, juntamente com os moradores de Felicity  ele anunciou, elevando: a voz, para que todos ouvissem.
Os aplausos soaram, calorosos. Levantando-se, Angela deul por encerrada a reunio.

CAPITULO IX

O que vamos fazer com o buggy? Iris perguntava a Adam,  sada do centro comunitrio.
	Vou pedir a George que o leve at Felicity. Voc continuar usando o carro da locadora, no?
	Sim.  um veculo confortvel e tem ar-condicionado.
	E voc continuar morando na casa de Lena, ou pensa em alugar outro imvel?
	Continuarei como antes. Afinal, ficarei em Felicity por apenas mais trinta e cinco dias.
O momento de dizer adeus fora adiado. ris e Adam encaravam o fato de maneiras diferentes. Adam gostaria que ris ficasse indefinidamente, que nunca tivesse de voltar a Min-neapolis. Ela, por sua vez, via o acontecimento como um milagre. Trinta e cinco dias poderiam trazer, quem sabe, novas perspectivas ao relacionamento de ambos.
	O que voc vai fazer  noite?  Adam indagou.
	Tenho uma reunio com Ivan, logo mais. Depois, estarei livre. Voc pretende voltar ainda hoje a Felicity?
	Seria o mais certo a fazer, mas...
Adam a fitava, esperando um pedido que ris no se recusou a fazer:
	Fique, por favor. Poderamos sair, jantar em algum lugar e conversar um pouco.
Ele sorriu, evidentemente aliviado.
	Certo. Que tal s oito?
	Perfeito  ela aprovou.  Sabe onde estou hospedada, no?
	Ora, ris...  Ele riu, divertido.  Tonopah  uma cidadezinha do tamanho de uma caixa de fsforos. Voc tornou-se uma celebridade. No conseguiria se esconder de mim, nem que quisesse... Ambos riram e ento ficaram se olhando, em silncio, transmitindo mensagens que dispensavam as palavras.
	Estou muito orgulhoso de voc  disse Adam, por fim.
 Sabia que voc tinha bons sentimentos, mas sua preocupao com Felicity realmente me tocou.
ris corou de satisfao. A vontade que tinha de beijar Adam ali mesmo, diante do Centro Comunitrio de Tonopah, era quase irresistvel.
	Bem... Acho que j vou indo  ele disse, relutante. At a noite, ento.
	At...  ris partiu em seu luxuoso carro, levando no corao uma esperana que a fazia vibrar de felicidade. Agora, ela e Adam teriam tempo de se conhecer um pouco mais.
No hotel, pouca depois, ris passou um bom tempo arrumando os cabelos e fazendo as unhas, que estavam em estado lastimvel. O trabalho em Rainbow havia reduzido suas mos delicadas a um verdadeiro caos, que ela tentava ordenar.
Era bom sentir-se assim, feminina, outra vez, ris pensava. Depois, imersa na banheira cheia de espuma, quase adormeceu, relaxada e feliz.
Quando Ivan chegou ao bar do hotel, no final da tarde, ris o aguardava numa mesa de canto, bebericando um martni.
	Voc foi formidvel, na reunio de hoje  tarde  ele comentou, depois de cumpriment-la.  Todos ficaram muito impressionados.
	Obrigada.  ris convidou:  Sente-se, Ivan. Quer tomar alguma coisa?
	Cerveja.  o ideal, nesse calor absurdo.
O garom aproximou-se e anotou o pedido de Ivan, afastando-se em seguida.
	Como vai o juiz Gore Meredith?  ela perguntou.
	Calmo e imperturbvel, como um rio em direo ao mar.
Parece que ele conquistou aquela parcela de sabedoria que o mantm acima dos problemas que afligem a maioria das pessoas.
	Em resumo, seu tio  um homem admirvel.
	Ele tem uma alegria de viver que muitos jovens no possuem. Gostaria de chegar a esse nvel de espiritualidade, algum dia.
	 E certamente chegar  ris afirmou.  Voc  um rapaz sensvel, idealista e possui um carter admirvel.
	Jura que voc pensa tudo isso de mim?  Ele sorria, encantador, como sempre.
	Sim, mas no fique muito convencido  ela recomendou, num tom bem-humorado.
O garom veio trazer a cerveja de Ivan e tornou a afastar-se. Ele sorveu um pequeno gole e ento entregou-lhe uma pasta.
	Gostaria de mostrar-lhe isso. So aquarelas, que fiz em meu: estdio, reconstituindo uma vila do princpio do sculo.
Comovida, ris observou cuidadosamente o trabalho de Ivan. Por fim concluiu, impressionada:
	Minha nossa... Voc  um artista!
	Obrigado. Diga-me, voc acha que  possvel expor essas aquarelas em Felicity, durante a festa?
	Claro. E por falar em festa, vamos falar sobre ela.
	Certo.  Ivan retirou vrios papis da pasta e explicou:  Veja. Esta  a disposio das barracas, que ocuparo o centro da cidade. Sero vendidos doces, salgados, bebidas... Enfim, tudo o que faz parte de uma quermesse.
	E suponho que os moradores de Felicity tero direito de dirigir essas barracas.
	Claro. S lhes pediremos que se vistam como os antigos pioneiros, com trajes que ns mesmos forneceremos. Queremos criar, para o turista, uma verso bem prxima do real. Veja os modelos que copiei, de algumas fotos antigas.
Agora  que vinha a melhor parte, ris pensou. Havia vinte e duas espcies de modelos masculinos e femininos, desenhados detalhadamente.
	E ento, o que acha?  Ivan perguntou.
	So maravilhosos  ris opinou.  Onde eles sero confeccionados?
	A est um detalhe que quero discutir com voc. Pretendo envolver ao mximo todos os moradores da comunidade, nesse projeto.
	Isso  muito bom, Ivan. Eu no esperaria outra coisa de voc.
	A questo : voc acha que podemos contar com os habitantes de Felicity?
	Com a grande maioria, sim. Mas devo avis-lo de que eles so extremamente pobres.
	Isso no  problema. Ns forneceremos tudo o que for preciso. Mas veja bem, ris: a coordenao da festa ter de ficar por sua conta.
	E voc, onde fica nisso tudo?
	Estarei em Carson City, coordenando a campanha. E ento? Quer assumir esse encargo?
	 muito trabalho  ela comentou, preocupada.  Mas eu o farei. Apenas, quero apoio total.
Com um largo sorriso, Ivan relaxou e sorveu mais um gole de cerveja.
	Eu receava que voc no aceitasse a responsabilidade. Afinal, voc j fez tanto, ris...
	Ora, ns estamos juntos nessa luta, Ivan.
Ele sorveu mais um gole. Retirou um envelope pardo, do bolso interno do palet, entregando-o a ris.
	O que  isso?  ela perguntou.
	Veja.
Curiosa, ris abriu o envelope. E no pde conter uma exclamao:
	Minha nossa... Quanto dinheiro!
	Isto  para os gastos imediatos. Quero que voc pague o trabalho de cada pessoa que contribuir para a realizao da festa. Esse dinheiro faz parte de uma verba de incentivo da Fundao Meredith, e  destinado a Felicity. Voc poderia as sinar o recibo? Est a mesmo, no envelope.
	Claro.  ris pegou o documento e, depois de conferir a soma ali indicada, assinou-o.
	Manterei um livro contbil e, no final, prestarei contas a voc. Agora... Quanto ao material para a construo das barracas, como faremos?
	Estou pensando em mandar um caminho a Felicity, com tudo o que for necessrio.
	 uma boa ideia.
Assim, unidos pelos mesmo objetivo, ambos conversaram animadamente, por mais de uma hora.
Por fim, deram por encerrada a reunio. Os principais detalhes j tinham sido discutidos.
	Isso  tudo - disse Ivan.  Ou voc tem mais alguma dvida? 
	Por enquanto, no.
	Ento, vamos mudar de assunto.  Ele sorriu.  Que tal jantarmos juntos?
	Oh, sinto muito, mas j tenho um compromisso.
	Com o noivo,  claro.
ris corou violentamente, antes de entender a brincadeira. Ivan estava se referindo ao papel que Adam ia desempenhar na festa de Felicity. Por isso o havia chamado assim.
	Ei, voc se ofendeu com a brincadeira?  ele perguntou, preocupado.
	Claro que no  ris respondeu, embaraada. E explicou:  Quanto a sua pergunta, a resposta  sim, vou jantar com Adam Freemont.
	Ento  ele o felizardo  Ivan concluiu, subitamente srio.  Eu devia ter imaginado.
	Ei... No seja to precipitado em seu julgamento. Por enquanto, eu e Adam somos apenas amigos.
	Ento esto perdendo tempo.
	Como?
	Ora, voc j estava apaixonada desde Carson City, eu bem que notei. O que Adam Freemont est esperando, para oficializar o namoro... Ser que ele quer que voc se declare?
	Creio que no  ris retrucou, com um sorriso. Depois, em tom mais srio, acrescentou:  O fato  que Adam est metido at o pescoo em seu trabalho. Ele jogou tudo o que podia e convenceu os moradores de Felicity a apostarem suas economias no projeto.
	Pois fez muito bem. Pelo que ouvi dizer, a tal rea quatro, situada numa cidade-fantasma chamada Rainbow, vai superar todas as expectativas. Adam Freemont ficar rico e os mora dores de Felicity tambm.
A simples meno da rea quatro fez com que ris se lembrasse imediatamente da gargantilha de sua bisav, para sempre perdida na poeira das velhas minas. Seu fracasso em demonstrar que a primeira ris no fugira de Felicity ainda lhe doa muito.
	O que foi?  Ivan indagou, confuso.  Por acaso eu disse algo errado?
	Oh... No foi nada.  Ela sorriu, com certa tristeza.  Afinal, no podemos exigir demais da vida.
Ivan considerou aquelas palavras cornar respeitoso. Depois levantou-se e despediu-se.
	No quero atrapalhar seu encontro com Adam Freemont. At outro dia, ris.
	At. D lembranas minhas ao seu tio.
	Sero dadas.
Sozinha  mesa, ris atraa os olhares dos frequentadores, que comentavam discretamente a beleza e notoriedade da bisneta de A Noiva do Arco-ris.
Pouco depois, Adam Freemont entrava no recinto, sendo recebido com carinho e deferncia por quase todos os que ali se encontravam. Ele acenou de longe para ris, terminou uma conversa rpida com um senhor idoso que o havia abordado e depois foi ao encontro dela.
	Conheo um bocado de gente, por aqui...  ele comentou, com um sorriso.
	Sente-se  ris convidou. Voc est muito elegante, Adam.
	E como poderia no estar?  Ele se acomodou.  Afinal, vou jantar com uma celebridade.
Ela sorriu, estendendo a mo por sobre a mesa. Adam tomou-a entre as suas, pressionando-a levemente, num gesto de carinho.
	Ivan acaba de sair  disse ris.
	Sim, eu o vi no estacionamento  Adam comentou. Um tanto relutante, indagou:  Existe alguma coisa entre vocs dois?
Surpresa com a pergunta direta, ela respondeu com sinceridade:
	Somos apenas bons amigos.
	Aposto que voc disse exatamente o mesmo, a Ivan, sobre ns.
Ela corou levemente, ao retrucar:
	E deveria dizer outra coisa?
	No sei.  muito difcil adivinhar o que vai na mente de uma mulher.
	E o que vai na sua mente, Adam Freemont?
	Quer mesmo saber o que estou pensando, neste exato momento?
	Diga.
	Que voc est muito linda, nesse vestido cor de creme. Que seu rosto corado de sol parece um pssego maduro e que sua boca  uma tentao irresistvel  ele confessou, com voz rouca.
Mais uma vez, ris sentiu a fora daquele desejo que a invadia, transformando seu corao em um atabaque selvagem, roubando-lhe a vontade prpria.
	E o que mais voc est pensando?  ela insistiu, num fio de voz.
	Que tenho vontade de beij-la, mas vou chamar o garom e pedir um scotch duplo. A noite nem comeou e j estou exaltado.
ris sorriu, deliciada. Era maravilhoso sentir-se assim, desejada. Mas Adam ainda no havia dito nada a respeito de seus sentimentos por ela.
Ela suspirou. A simples manifestao do desejo no satisfazia plenamente suas expectativas com relao a... Qual seria a palavra para definir o que tanto ansiava... Afeto? Romance... Amor?
Com um leve meneio de cabea, ris chamou-se intimamente de tola. Era natural que a atrao entre ela e Adam principiasse pelo lado sexual. Afinal, essa era a parte mais evidente de um complexo sentimento, muito mais amplo e profundo. Um sentimento que ela j aceitara como inevitvel. Agora, restava saber qual seria a postura de Adam, na situao... Seria uma questo de tempo? Ela esperava, sinceramente, que sim. O garom aproximou-se e Adam pediu o seu drinque.
	Voc se lembra daquele terreno baldio, ao lado da casa de Lena?  perguntou, aps um breve silncio.
	Sim.  um terreno grande, no?
	Exato. Ele me pertence, ou melhor: pertencia, pois acabo de do-lo para a construo do seu hospital. Contratarei alguns homens para limp-lo, amanh. A cerca precisa ser refeita, sabe? Mas isso no levar muito tempo.  O garom trouxe a bebida e Adam sorveu um gole, antes de finalizar:  Gostaria de colocar, l, a placa de bronze doada pela Fundao Meredith, o mais breve possvel.
ris fitou-o, comovida:
	Parece um sonho.
	Que voc tornou realidade.
	Eu e as circunstncias, Adam Freemont. Se no houvesse o seu projeto, a campanha de Ivan, o interesse da Silver-Gold...
 Ela fez um gesto vago, sem concluir a frase.  Entende o que quero dizer?
	Sim. Parece que estamos navegando no sentido certo dos acontecimentos.  Com um sorriso, Adam acrescentou:  E como se nossa histria estivesse sendo escrita por algum que deseja um final feliz.
	Em outras palavras, estamos tendo sorte.
	Pode ser dito dessa maneira, sim.
	E ser que saberemos estar  altura dos acontecimentos, Adam?
A pergunta de ris tinha um complemento, que ela no se atrevia a expressar em voz alta. Mas em sua mente a frase continuava assim: "Ou deixaremos escapar a oportunidade de sermos felizes, juntos?"
	At aqui, estamos fazendo o possvel, no ?  Adam respondeu, longe de supor o que ris pretendia dizer.
	Bem, agora vamos deixar esses assuntos srios de lado  ela sugeriu.  Afinal, teremos muito tempo para falar sobre eles. Hoje estou feliz como no me sentia h muito tempo. Quero beber champanhe e danar num lugar bem bonito, na companhia agradvel do cavalheiro que est sentado diante de mim.
	 para j, senhorita  Adam retrucou, fitando-a com intensidade.
Pouco depois, ambos deixavam o bar do hotel, no belo carro doado a ris pela Locadora Aurum. Adam dirigia. E conduziu o carro at um local afastado, fora do permetro urbano da cidade. Ento parou, numa pequena elevao, de onde era possvel contemplar a cidade e o deserto ao redor.
A lua surgia no cu, plena e avermelhada, agitando as guas, a seiva das plantas... O corao dos homens.
	 magnfica  disse ris, extasiada.
	Tal como tudo isso  ele afirmou, abrangendo com um gesto a paisagem ao redor
ris voltou o rosto para contempl-lo. Adam estava srio, quase solene. Diante da beleza, ele assumia uma atitude de
total reverncia.
	Voc ama essa regio, no  mesmo, Adam?  ela per guntou, em voz baixa.
	Voc nem imagina quanto. Quando eu morava em Boston e via a lua cheia nascer, sentia uma terrvel saudade do deserto de Nevada. Era como se eu fosse um exilado, sabe? E desde aquela poca eu jurava que voltaria.
	E quanto  vida social, Adam?  ela argumentou.  Queira ou no, voc  um engenheiro, uma pessoa que leu e estudou muito. Na certa conheceu teatros, grupos de dana, exposies de arte, a msica das grandes orquestras, enfim... Ser que no sente falta de tudo isso?
Ele sorriu, tomado por uma onda de ternura. Naquele momento, via ris como uma criana pura, a quem devia uma explicao bvia, mas difcil. E sua voz soou muito suave, ao dizer:
	O teatro, ris,  a histria da relao entre os seres humanos. A literatura,  a histria de suas vidas. As telas retratam o nascer e o pr-do-sol. A msica, traduz as vozes das crianas, o canto dos pssaros, os sons do vento... Como voc v, a arte sempre imita a vida. E, aqui, estou cercado de vida, pura, genuna e simples.
	E o amor, Adam?
	Ele nasce e morre dentro da gente. Parece que alguns tm a felicidade de compartilh-lo com outra pessoa, escolhida por seu corao. Mas esse milagre ainda no aconteceu comigo.
O silncio caiu entre ambos, como um vu sutil, levando-os a profundas reflexes.
Depois, Adam acionou o motor do carro e dirigiu de volta  cidade.
	Ali est o People  disse, apontando um restaurante situado num bairro tranquilo.  Voc ainda est com vontade de tomar champanhe e danar?
	Sim  ris respondeu, com um sorriso.
	Ento, vamos em frente.
Havia bastante gente no People. Um conjunto de blues viera de Carson City para tocar naquela noite.
Adam e ris foram cumprimentados por todos. Eram a atra-o da casa, devido aos ltimos acontecimentos.
O gerente fez questo de receb-los. E conduziu-os a uma mesa situada num local privilegiado, perto da pista de dana.
Um garom solcito serviu-lhes um leve jantar  base de peixe e ervas aromticas, acompanhado por um champanhe francs, na temperatura correta.
ris danou muitas vezes com Adam, sentindo-se cada vez mais eufrica, invadida por uma onda de felicidade to perfeita, que chegava a assust-la.
J era madrugada quando ambos decidiram partir. O ambiente tornara-se pequeno demais para o que estavam sentindo... Eles precisavam de liberdade e um pouco de ar fresco.
Acionando a partida, Adam dirigiu o carro luxuoso para o deserto, em busca de um pouco de paz e de uma intimidade maior com ris... No necessariamente fsica. O que ele buscava, na verdade, era uma comunho de coraes.
A lua j ia alta no cu denso, carregado de estrelas. Eram tantas, que davam a impresso de que poderiam ser tocadas com a mo.
Adam parou o carro e convidou ris para um passeio.
A paz e o silncio pareciam palpveis, naquela paisagem mgica.
De mos dadas, ambos caminhavam pela infinita extenso de areia, como se guiados por uma fora mgica, que os iluminava e ditava os atos subsequentes.
O beijo, que comeou terno, transformou-se rapidamente numa febre de paixo. Os corpos, imantados ao longo de tantas horas de dana no People, buscavam-se com uma urgncia que j nada poderia deter.
O fogo que os unia parecia vir do cho calcinado para elevar-se, em espirais caprichosas, at os coraes.
As mos de Adam, como se tivessem vontade prpria, comearam a despir ris lentamente. O corpo alvo e jovem revelou-se  luz da lua, como a mais bela obra que a natureza terrena podia revelar.
Tambm ela, guiada por uma fora calma e incontestvel, ajudava Adam a se livrar das roupas.
E assim, nus como quando no primeiro dia da criao, caminharam sem palavras pela areia macia, como se procurassem um ponto ideal, perfeito para a consumao do amor.
Por fim, detiveram-se no alto de uma elevao e ali se deitaram, estreitando os corpos com ansiedade, os beijos cada vez mais intensos transformando-se em chamas ardentes, que os consumiam.
	Eu amo voc, Adam Freemont  ris murmurou, enquanto ele penetrava sua mais profunda intimidade.
	Eu quero voc, ris Merlin... Agora.
As estrelas pareciam rodopiar pelo cu, num suave ritmo de valsa... Que aos poucos foi se acelerando, transformando-se num ritmo muito mais quente, mais rpido... Como uma dana alucinante.
Despidos no apenas das roupas, mas de qualquer conceito ou barreira, Adam e ris entregavam  fora fantstica da paixo que os dominava. O vento soava como uma msica, arrancando das pedras e arbustos uma melodia de metais ardentes, acompanhada de um coro profano de vozes atvicas. Num crescendo, elevava-se da intimidade dos corpos at a in-fmitude do cu, com uma intensidade indescritvel... At que ris gritou de prazer, entrando no campo de um gozo infinito, onde ela, as estrelas, a terra, o ar e o fogo compunham um nico universo.
Agora o vento assemelhava-se a um blues... Parecia emanar dos corpos midos de amor, refrescando-os simultaneamente, ris apoiou o rosto no peito de Adam, ouvindo-lhe as batidas ainda descompassadas do corao. Ele acariciou-lhe os cabelos, lentamente... At parar.
Fechando os olhos, ambos caram numa espcie de sono benfico, no descanso s permitido queles que transpunham as portas do paraso.

CAPITULO X

Os dias que se seguiram ao encontro de ris com Adam, em Tonopah, foram bastante movimentados. O tempo passava rpido, em meio a muitas atividades.
Todos os moradores de Felicity queriam participar dos preparativos para a festa de aniversrio da cidade.
A casa de Lena era o centro das atividades. Alguns quartos tinham sido transformados em estdios de costura, outros em depsito de materiais.
As mulheres se reuniam todos os dias e o resultado do trabalho j comeava a aparecer.
Em seu quarto, diante de um grande espelho, ris experimentava, pela dcima vez, o vu de noiva com as cores do arco-ris.
	Voc  perfeccionista, Lena  ela protestava.  O vu est timo, no  preciso mexer em mais nada.
	Eu direi quando estiver pronto  Lena discordava.  Tire-a, por favor.
E ris, resignada, obedecia.
Nunca se separava de sua caderneta, onde anotava todos os assuntos relativos  festa.
As estruturas das barracas haviam chegado num caminho, no dia anterior. Algumas peas tinham sido danificadas, durante a viagem. E um grupo de homens, liderados por um marceneiro, encarregara-se de consert-las.
As construes antigas da cidade passavam por uma leve reforma. Modificaes acrescentadas com o tempo nas estruturas originais eram disfaradas aqui e ali por mos de tinta, tapumes de madeira, placas ornamentais.
Felicity parecia um formigueiro, em plena atividade. Todos
os homens que no trabalhavam no projeto de Adam estavam agora a servio da cidade. Mesmo assim, ris teve de pedir reforos a Tonopah, quando a data da festa se aproximava. A penso de Lena ganhava, assim, seus primeiros hspedes, depois de tantos anos desativada.
Fiel  orientao de Ivan, ris pagava todos os que colaboravam na festa. E o dinheiro voltara a circular, no acanhado comrcio de Felicity.
O Saloon Aperto de Mos agora permanecia aberto todas as noites, at cerca de onze horas. Havia um bom nmero de fregueses, e o que era mais importante: eles tinham dinheiro para gastar.
ris passava o dia e boa parte da noite dedicando-se ao trabalho. Quase no encontrava tempo para pensar em si mesma. E quando se recolhia ao quarto, exausta, sua mente a levava sempre  mesma lembrana: Adam e a noite mgica que haviam passado, no deserto sob a lua.
	Adam...  ela murmurava, junto ao travesseiro.  Onde voc est, agora? Por que no veio me ver?
Envolvido nos trabalhos de prospeco da rea quatro, Adam s chegava a Felicity tarde da noite. Muito cansado, mal tinha tempo para um banho e uma refeio leve, antes do sono restaurador. No dia seguinte, antes que o sol se levantasse no horizonte, ele voltava s minas.
Mas houve um dia em que Adam precisou interromper o trabalho, ris mandara cham-lo, por um motivo absolutamente justificvel: o figurino do personagem Wynne Rowland, esposo de A Noiva do Arco-ris, estava quase pronto. Adam teria de prov-lo.
ris estava em frente ao Saloon Aperto de Mos, coordenando a armao de um stand, quando viu Adam estacionando seu jipe Esmeralda, do outro lado da rua. Com o corao feliz e as faces afogueadas, aguardou que ele se aproximasse.
Muito calmo, e como sempre coberto de p das estradas, Adam saudou-a com uma expresso terna:
	Como vai, ris?
	Bem. E voc?
	Trabalhando como um louco.  Ele sorriu.
	At parece que moramos em duas cidades diferentes  ela comentou, sorrindo de volta.  Ser que voc no encontra tempo para conversarmos um pouco?
	Sinceramente, conversar  o que menos me ocorre, quando vejo voc  confessou, com um misto de desejo e ternura.
ris sentiu-se corar ainda mais.
	At para isso  preciso tempo, Adam Freemont  ela ousou dizer, em voz baixa.
	Terei umas horas livres esta tarde, depois de experimentar o traje de Wynne Rowland. Se Lena me dispensar logo, ser muito bom.
	Do jeito que ela  perfeccionista, isso pode demorar um pouco.
	Bem, mas no levar o dia todo. O que voc acha de tomarmos um refresco, l em casa?
	Combinado. Vou apressar os marceneiros que esto montando o palco para a banda e os discursos. Depois, irei at l.
Emocionados, ambos ficaram se olhando por um longo momento, contendo o desejo de se beijarem ali mesmo, diante de toda a Felicity.
Um grito de advertncia rasgou a tarde tranquila, com a fora de um rude golpe. ris e Adam voltaram-se, a tempo de ver a pequena Samantha, que andava por sobre a lona de uma barraca, desequilibrar-se e cair no cho duro da rua principal, calcinado pelo sol impiedoso.
Todos correram para l. E quando ris chegou com Adam, um pequeno grupo j se formara em torno da menina.
	Afastem-se  ela ordenou, abrindo passagem. Ajoelhou-se ao lado de Samantha, que estava desacordada. Tomando-lhe o pulso, verificou, aliviada, que a menina estava viva. Mas ao abrir-lhe as plpebras cerradas, teve um princpio de pnico.
	H sangue nos olhos  exclamou, estremecendo.  Pre cisamos de um mdico.
	No existe nenhum aqui em Felicity e voc sabe disso  disse Adam, com profunda tristeza, abaixando-se ao lado de Samantha.  Onde esto os pais da garota?  perguntou, lanando um olhar ao redor.
	A me foi a Carson City e o pai est na mina  um homem respondeu.
	Voc sabe que essa criana  filha de Tony Killian?  Adam informou ris.
	No diga!  ela deteve-se por um instante, considerando aquelas palavras surpreendentes.
"Se algo acontecer a Samantha", pensou, "Tony Killian me apontar como culpada. E as consequncias podem ser terrveis."
	Mas isso no importa, agora  decidiu, em voz alta.. A vida desta criana est em jogo e vale muito mais do que minhas diferenas com Tony Killian. Vamos improvisar uma maca. Arranjem uma tbua larga, do tamanho da menina.
Todos atenderam prontamente e, em poucos minutos, a tbua apareceu, trazida por um rapaz. ris agradeceu com um gesto de cabea e voltou-se para Adam:
	Preciso de voc.
	Claro, pode contar comigo.
	Samantha deve ser levada a Tonopah imediatamente. Vou buscar minha bolsa, enquanto voc toma conta de Samantha. No deixe que mexam nela, nem que a mudem de posio.  ris afastou-se, correndo, em direo  casa de Lena.
Voltou logo depois, em seu carro luxuoso, estacionando-o no meio da rua. Algumas pessoas apressaram-se a abrir as portas traseiras. Outras, carregaram Samantha, na maca, para dentro do veculo, depositando-a cuidadosamente sobre o banco traseiro.
	Entre com ela, Adam  ris pediu.  E cuide para que no se mexa.
Ele obedeceu e o carro partiu em alta velocidade, ganhando a estrada.
	E pensar que o hospital j podia estar pronto  ris murmurou, com um suspiro.
	Estar, algum dia. E ento as pessoas acidentadas podero ser atendidas aqui mesmo, em Felicity. Temos de acreditar nisso, ris.
	O que importa, agora,  salvar Samantha. Como est ela?
	Com a pulsao muito fraca.
	Santo Deus.  ris acelerou.  Ns temos de chegar a tempo.
A estrada deserta possibilitava uma velocidade constante, ris exigia, do possante motor do carro, tudo quanto ele podia dar. Afinal, a vida da criana estava em jogo.
	Nunca essa estrada me pareceu to longa  disse Adam, como se pensasse em voz alta. 
	Sinto-me da mesma forma. Ser que no chegaremos nunca?
Depois disso, ris e Adam quase no se falaram. Fizeram o trajeto longo num silncio carregado de angstia.
Finalmente avistaram a cidade e entraram em Tonopah, desrespeitando todos os sinais e convenes de trnsito. Com a mo na buzina, ris atravessou diversos faris fechados, provocando a indignao de motoristas e pedestres.
Adam, que conhecia melhor a cidade, a orientava. Minutos depois, ris estacionava no ptio do hospital e Adam saa em busca de ajuda. Dois enfermeiros correram para o carro e retiraram a maca improvisada, tomando todo o cuidado para que Samantha no se mexesse.
Explicando o caso ao mdico de planto, ris deu um prvio diagnstico.
A senhorita  mdica?  ele perguntou, surpreso.
	No, mas fiz diversos cursos de primeiros socorros e atendimento de urgncia.
	Bem, aguardem na sala de espera. Faremos tudo o que for possvel para salvar a menina.  O mdico afastou-se pelo corredor, juntamente com os dois enfermeiros, que carregavam a maca.
ris deixou-se cair num sof. Estava exausta, plida e assustada. Adam foi buscar um copo de gua e voltou rapidamente.
	Tome isto e tente se acalmar. Voc foi maravilhosa at aqui.  Tentou gracejar:  No v dar vexame, agora.
O tempo passava, sem que ningum lhe desse notcias de Samantha. Adam andava de um lado a outro da sala de espera, como se a medisse, em passos largos. ris acabara deitando-se no sof, com a mo sobre os olhos, respirando compassadamente.
A certa altura, Adam se deteve perto dela, fitando-a com uma expresso nova, muito diferente do simples desejo.
Se ris abrisse os olhos naquele momento, veria um homem declarando seu amor, sem nada dizer.
Claro que Adam desejava aquela mulher, com uma intensidade que chegava a doer. Mas ao v-la assim, entregue ao desespero pela vida de algum que mal conhecia, ele compreendia que seu sentimento por ela era muito maior. Queria-a como amiga, amante, companheira de vida, enfim... Como seu amor.
	ris...?
	Hein?
	Eu...
Uma porta de vidro fosco se abriu e o mdico entrou na sala de espera, retirando a mscara cirrgica.
ris sentou-se no sof, os cabelos em desalinho, os olhos azuis brilhando com um misto de ansiedade e esperana.
 Ela est salva  o medico anunciou.  Conseguimos evitar a hemorragia interna e devemos isto a vocs dois, que usaram os procedimentos corretos e, sobretudo, chegaram a tempo. Parabns.
Esquecendo-se de todo tipo de conveno ou etiqueta, ris abraou o doutor, como se ele fosse um grande amigo. Adam imitou-a. E a admirao recproca uniu aqueles seres, to distintos, na comemorao pela vida que haviam conseguido salvar.
	Podemos v-la?  ris perguntou, num fio de voz.
	Sim, mas ela est inconsciente  o mdico avisou.
Momentos depois, os trs entraram no quarto onde a pequena Samantha repousava. E demoraram-se por um bom tempo ao lado da cama.
	Algum precisa ficar com ela  disse ris.
	Vou telefonar a Carson City e tentar localizar a me  Adam decidiu.
	Sim, faa isso, por favor. Ficarei aqui at que chegue algum da famlia.
	Certo.  Adam saiu, acompanhado pelo mdico.
ris sentou-se na cama ao lado da de Samantha e ficou rezando em voz baixa, at sentir o corao mais calmo.
Ela, Adam e o mdico haviam vencido aquele round contra a morte. E isso significava muito, ris pensou, esticando-se na cama, tomada por um profundo alvio.
J era noite quando despertou, ouvindo vozes dentro do quarto. Ali estavam uma enfermeira e tambm o pai da menina, que acabava de chegar.
Tony Killian usava suas roupas rudes de trabalho, pois viera correndo. Mal tivera tempo de lavar as mos e o rosto. Parecia subitamente envelhecido e aproximou-se da cama da filha com exagerado cuidado.
Era grotesco e a um s tempo trgico ver aquele brutamontes agindo com tanta delicadeza, ris pensou, observando-o com curiosidade.
Tony Killian ajoelhou-se ao lado da cama e, tomando as mos da filha ainda desacordada beijou-as carinhosamente.
O corao de ris se abrandou diante da cena. As imagens do mineiro brutal que tanto a hostilizara foi aos poucos desaparecendo de sua mente. Aquele homem no era perigoso, afinal... Ao menos no naquele momento, em que parecia apenas um pai sofrendo pela filha acidentada.
Bem, agora ela nada mais tinha a fazer ali. E, assim, ris levantou-se. Abrindo a bolsa, pegou um pente e passou-o pelos cabelos em desalinho. Ento guardou-o de volta e preparou-se para sair.
Erguendo-se, Tony Killian voltou-se para ela.
ris fitou-o com indisfarvel temor.
A barba, crespa e ruiva, dava ao rosto daquele homem uma expresso feroz, apenas desmentida pelos olhos que mais pareciam os de um menino assustado com as peripcias da vida.
Tomando flego, ela caminhou em direo  porta.
Srta. ris Merlin...  Tony Killian chamou-a.  Espere, por favor.
	Sim?  Ela voltou-se, tomada por uma estranha calma. Disseram-me que foi a senhorita quem socorreu minha filha, depois da queda. O mdico falou que, se no fosse por sua ajuda, Samantha poderia ter morrido.
ris olhava-o com compreenso, mas sem benevolncia. Ento, o enorme e brutal Tony Killian levou a mo ao rosto e, fechando os olhos com fora, chorou.
Os ltimos vestgios de rejeio, que ainda existiam em ris, desvaneceram-se naquele momento. E por um instante ela pensou que todo homem era um menino crescido, vivendo num mundo quase sempre injusto, com responsabilidades pesadas, que excediam sua capacidade... E que todos os seres, por mais erros que tivessem cometido, mereciam um pouco de bondade e complacncia.
Num impulso, ris estendeu a mo, tocando de leve aquela face que num momento de ira e terror ela agredira de modo inconsequente.
Fitando-a nos olhos, Tony Killian tomou-lhe a mo entre as suas. Ento curvou-se e beijou-a desesperadamente:
 Deus h de recompens-la por ter salvo a vida de Samantha. Eu nada posso fazer para retribuir...
Num movimento suave, ris retirou a mo e sorriu para Tony Killian. Com um aceno de despedida, ela saiu do quarto.
A recepcionista informou-a que Adam havia se encarregado de todas as despesas e que tinha partido para Felicity.
 Ele deixou este bilhete  disse a recepcionista, dando-lhe um envelope.
Iris abriu-o e leu o recado:
Precisei voltar a Felicity. Fui me despedir de voc e a encontrei dormindo. No quis acord-la. Aguardo-a em casa. Adam.
Um tanto decepcionada, pois pensava que voltariam juntos para Felicity, ela saiu para o estacionamento, entrou no carro e partiu. A viagem trouxe uma calma benfica a ris, que guiando em mdia velocidade, chegou em Felicity bem antes do sol nascer. O bilhete de Adam dizia: aguardo-a em casa. E sem pensar duas vezes, ris dirigiu-se ao gracioso chal de madeira onde ele morava.
A luz da varanda estava acesa e, a porta, destrancada. ris entrou na casa silenciosa. Caminhando at o quarto, encontrou Adam dormindo atravessado sobre o colcho, sem camisa, mas ainda de jeans.
 Agora sou eu quem devo respeitar o seu sono  ela murmurou, enternecida. E ento afastou-se, fechando a porta com cuidado. Sem nada para fazer, foi at o escritrio.
Na parede, havia um mapa que ris j conhecia e que re-tratava a rea quatro: a regio de Rainbow.
Ela aproximou-se, reconhecendo de imediato a colina de Sha-dow House, sinalizada por diversas bandeirinhas vermelhas que marcavam o local das perfuraes.
Trs riscos azuis mostravam as galerias subterrneas, que ris havia percorrido por tantos dias, sem nenhum sucesso. Ali estava o tnel da esquerda, que ela explorara at a exausto... E o da direita, onde encontrara o tecido antigo e a rota de fuga... Quantas histrias ficariam soterradas para sempre, ali em Sha-dow House, ris pensou, com um sentimento de nostalgia.
Foi naquele momento que reparou no trao azul que indicava a galeria do centro... Um trao apenas comeado e logo interrompido. De acordo com a escala do mapa, aquele tnel, que ela no pudera explorar, devia ter no mximo cem metros.
 Mas eu poderia t-lo percorrido em apenas algumas horas!  ela constatou, em voz alta.
Olhando mais atentamente, notou que sobre o pequeno tnel no havia bandeirinhas sinalizando os trabalhos de perfurao.
Isso significava que o tnel ainda estava intacto...
Uma onda de energia cresceu dentro de ris, que afastou-se quase correndo em direo  sada do chal. J havia decidido o que fazer.
Tomando o carro, ris dirigiu at a casa de Lena e subiu at seu quarto, na ponta dos ps, para no fazer barulho. Saiu logo em seguida, levando sua velha mochila e o detector de metais. Jamais pensara que um dia teria a oportunidade de us-lo.
Parou por um instante ao lado do carro belo e luxuoso, que agora seria submetido a uma dura prova, numa estrada de terra, toda esburacada. Depois, colocou os objetos no banco traseiro, acomodou-se ao volante e partiu.
Amanhecia, quando ris estacionou ao lado das runas de Shadow House. No havia ningum  vista.
Com agilidade, ela desceu at a entrada da mina e percorreu os primeiros metros que a separavam do salo principal. Ali chegando, deteve-se, colocando a mochila no cho. Iluminando as trs entradas que se abriam a sua frente, ris estremeceu diante do perigo ao qual estava se arriscando...
De acordo com o mapa que vira no escritrio de Adam, o tnel do centro ainda no tinha sido afetado pelas perfuraes. Mas os dois laterais, sim.
ris sentiu um calafrio percorrendo-lhe a espinha. E se houvesse ocorrido um desmoronamento? E se o tnel central estivesse obstrudo? Ou, o que era ainda pior... E se o tnel desabasse sobre ela?
O medo paralisou-a por um instante, mas era tarde demais para recuar.
Reunindo toda coragem que possua, ela estendeu o detector de metais  frente, ajeitou o foco do capacete e da outra lanterna... E entrou no tnel central.
A velha sensao de falta de ar, o silncio absoluto, a densa escurido em torno... Tudo isso ela conhecia. Mas havia algo de novo: o bip do detector de metais, quebrando o silncio e ecoando estranhamente, nas entranhas da terra.
Esquadrinhando o cho em todos os sentidos, ris submetia-o  leitura magntica do aparelho. Os cem metros que calculara no mapa revelavam-se interminveis. Mas por fim ris chegou a um pequeno salo, que parecia no dar passagem a lugar algum.
 Tem de ser aqui  ela murmurou, ansiosa.
Vasculhando as paredes e cada centmetro do solo, ris sentia a expectativa crescer at um limite incalculvel.
Por cerca de uma hora, ela persistiu em sua busca... Em vo. Lgrimas de frustrao acorreram-lhe aos olhos. Arriscara-se inutilmente. No havia nada ali, nem no resto do tnel, nem tampouco nas outras galerias.
Com a amarga serenidade de quem finalmente desistisse de um sonho, ela sentou-se no solo empoeirado, apoiando as costas na spera parede de pedra bruta. Precisava voltar, antes que dessem por sua falta em Felicity.
Levantando-se, vencida pelo desnimo, ela colocou a mochila nas costas e o detector de metais sobre o ombro direito, sem se importar que os sensores ficassem voltados para o teto, emitindo um sinal eletrnico que aumentava de frequncia a cada segundo.
	Era s o que faltava  ela resmungou.  Essa droga agora resolveu disparar.
Tirando o aparelho do ombro, ela fez meno de deslig-lo. Ento os bips diminuram de intensidade e de frequncia.
Ora... Mas se no est quebrado...
A compreenso chegou lentamente ao crebro de ris, que livrando-se da mochila voltou a posicionar o detector com os sensores para cima. Novamente os bips soaram, repetidos e intensos.
Com a outra mo, ris tentava iluminar o local acusado pelo aparelho. Mas a luz da lanterna, mesmo auxiliada pelo farolete do capacete, nada revelava. Depositando o detector no cho, ris ergueu-se nas pontas dos ps e comeou a apalpar a parede rochosa, a princpio lentamente e depois com eufrica velocidade. A terra se desprendia, tornando-se p entre os dedos vidos de ris, que no tardou a encontrar um pequeno nicho cavado na pedra.
Tateando-o, ela sentiu o contato de um objeto de formato retangular e muito slido. Com cuidado, trouxe-o para fora.
Tratava-se de uma caixinha, cujo fecho havia apodrecido, ris abriu-a sem dificuldades, j prevendo o que ia encontrar...
Ali estava a gargantilha de A Noiva do Arco-ris com suas muitas pedras preciosas... Todas opacas, cobertas pela poeira
dos tempos.
Caminhado como num sonho, ris abandonou a mina. Sob a luz do sol que inundava a manh gloriosa do deserto de Nevada, ela ergueu a gargantilha acima da cabea e girou sobre si mesma, at sentir o cho fugir-lhe sob os ps.
Era uma embriaguez nica, que s poderia ser vivenciada poucas vezes, na vida: a sensao de vitria, quando tudo j parecia estar perdido.
Sentada ao lado do juiz Gore Meredith, em Carson City, diante do joalheiro do Estado, ris aguardava um veredicto.
	Eu diria que esta jia  uma pea rara, de valor incalculvel.
	D-nos uma cifra aproximada  o juiz pediu.
	Digamos... Cerca de trezentos e oitenta mil dlares,
ris imediatamente pensou nos muitos benefcios que poderiam
ser feitos em Felicity, com todo aquele dinheiro. Um parque para as crianas, uma linda e moderna biblioteca, uma escola tcnica, um teatro... Quantas coisas! Ela sonhava de olhos abertos.
	Aconselho-a a fazer uma cpia, senhorita. E a guardar a jia original num lugar seguro  disse o joalheiro.  Pena que faltem trs pedras, no conjunto. Ser difcil encontrar ou tras para substitu-las.
Sem nada dizer, ris abriu a bolsa e retirou o pequeno embrulho, que sempre levava consigo. Com gestos lentos e delicados, abriu-o diante dos olhares surpresos do joalheiro e do juiz.
Aqui esto. Confira, por favor.
O especialista examinou-as atentamente. E ento sentenciou:
Estas trs pedras pertencem  gargantilha. Como as conseguiu?
Trata-se de uma longa histria, que narrarei com prazer  ris respondeu, com um sorriso infinitamente sereno.  Mas antes quero dizer que conto com os senhores como minhas testemunhas. H um certo historiador chamado Donald Fontenot, que ter de retificar suas opinies sobre A Noiva do Arco-ris. Caso contrrio, eu o processarei. Certo, senhor juiz?
	Donald Fontenot pode ser oportunista, mas no  estpido  o juiz opinou.  Ele com certeza vai querer tirar proveito da situao, para criar uma polmica e chamar a ateno do pblico para seu novo livro. Mas ceder, diante das evidncias. E sem dvida far um apndice no livro, afirmando que ris Merlin no deixou Felicity durante a epidemia de clera. Disso, a senhorita pode ter certeza.
ris ouviu aquelas palavras com uma sensao de alvio. Agora, tinha diversas providncias a tomar. A primeira seria seguir a recomendao do joalheiro.
	O senhor poderia se encarregar de fazer a cpia da gargantilha?  ela perguntou.
	Claro, senhorita. Para quando precisar dela?
	O mais breve possvel.
Pouco depois, ela despedia-se do joalheiro e saa para a rua, de braos dados com o velho juiz.
	Prepare-se para uma enxurrada de entrevistas e outras chateaes  ele avisou-a.  Meu sobrinho Ivan vai explorar este caso ao mximo. E voc ter de ficar aqui, em nossa cidade.
	Eu sei  ela assentiu, com um suspiro.  Ser difcil ausentar-me de Felicity, justo agora, quando h tanta coisa ainda por fazer, at o dia festa.
	Ns providenciaremos para que tudo corra bem. O importante, no momento,  chamar a ateno do pas sobre o assunto. A campanha ter um sucesso estrondoso.
	Assim espero  ris respondeu, cheia de esperana.

EPLOGO

Os dias que se seguiram foram, para ris, uma sucesso de fatos que lembravam os preparativos de uma guerra.
O juiz Gore Meredith havia insistido em hosped-la em sua manso, onde teria maior privacidade.
Ivan planejava cada passo da campanha, discutindo longamente com ris o teor das respostas que ela daria s entrevistas, as roupas a serem usadas, os temas que deveriam ser abordados...
Mas quando ris fez sua primeira apario no programa Bom dia, Amrica, de grande audincia do pas, foi como se uma avalanche a arrastasse, independente de sua vontade.
Todos queriam v-la, entrevist-la, fotograf-la, convid-la para festas e recepes. Mas afora duas coletivas concedidas  imprensa, todas as outras entrevistas foram rigorosamente selecionadas por Ivan.
Num debate com o historiador Donald Fontenot, que estava sendo transmitido por uma grande emissora, ris exigiu que ele se retratasse publicamente, desmentindo as informaes contidas em seu livro.
Com muita naturalidade, o historiador cedeu. E fez o que ris queria. Dias depois, publicaria uma nota nos jornais:
Diante da descoberta da corajosa e bela bisneta da Noiva do Arco-Iris, no tenho motivos para manter minhas antigas afirmaes. Assim, declaro que retificarei o trecho de meu livro referente a antiga ris Merlin. Mais do que isso, escreverei algumas linhas elogiando sua bravura e profundo humanismo.
ris leu a notcia com um sentimento de vitria. Agora sim, podia considerar-se uma mulher realizada.
Mas  noite, na varanda da manso de Gore Meredith, ela sentiu-se subitamente vazia, como se esgotada em suas resolues e lutas. Uma tristeza profunda a dominava por completo e isso no passou despercebido ao velho juiz, que num tom amvel indagou:
	O que est havendo com voc, ris? Nunca a vi assim, antes.
	Acho que o cansao, o assdio do jornalistas e a correria  dos ltimos dias esto me desgastando.
	Compreendo  o juiz aquiesceu, pensativo.  E o que mais?
Num sbito desabafo, ris confidenciou:
	Creio que o homem que amo apenas me deseja 	Como?  Gore Meredith surprendeu-se.  Quero dizer... Quem seria louco de no corresponder ao seu amor, minha querida?  Indagou, num tom carregado de ternura.
	Adam Freemont  ela respondeu, com amargura.  Mesmo nos momentos mais ntimos, ele nunca disse que me amava. Sonho em passar o resto dos meus dias ao lado dele, construir um futuro em Felicity, ter filhos... Mas Adam s pensa em fazer amor comigo  concluiu, baixando os olhos.
	Ora, vamos...  O juiz sorria, tentando consol-la.  Voc deve estar enganada. No sou amigo ntimo de Adam Freemont, mas conheo-o o suficiente para saber que ele no  um idiota.
	Oh, claro que no  ris apressou-se a dizer.  Muito ao contrrio: ele  o homem mais idealista, forte e maravilhoso que j conheci, em toda a minha vida.
	Est vendo? Se Adam fosse um sujeito qualquer, que a visse a apenas como um objeto de prazer... Ser que voc se apaixonaria por ele?  Antes que ris respondesse, acrescentou:  Duvido.
	Quem sabe o que vai na mente de um homem como Adam?  ela ponderou.  Talvez ele tenha um modo muito pessoal de encarar o relacionamento amoroso... Um modo que no passe, necessariamente, pelo casamento, pela formao de uma famlia.
	Sossegue seu corao, ris  o velho juiz aconselhou, num tom amvel.  Voc chegou a Nevada trazendo apenas uma esperana e sua fora de vontade. E veja o que conseguiu  sua volta! Acha que o mundo seria to cruel, ao ponto de no retribuir todo o bem que fez, todo o amor que plantou?
		Eu no sei  ela respondeu, angustiada.  Mas j tomei uma deciso. Depois da festa de aniversrio de Felicity, voltarei a Minneapolis. No suportaria viver na mesma cidade que Adam, sem t-lo inteiramente para mim.
O juiz sorriu, com bondade e compreenso.
Voc ainda ser muito feliz, pode apostar nisso.
Mas ris, mergulhada em seu sofrimento, nem sequer o ouviu.
No dia do aniversrio de Felicity, logo pela manh, ris chegou  cidade acompanhada por Ivan e dois assessores do projeto. A cidade fervilhava de turistas, vindos de toda parte do pas.
Os moradores, vestidos a carter, desfilavam pelas ruas com naturalidade. O movimento em torno das barracas era impressionante.
Um clima festivo pairava sobre a cidade, enfeitada com ban-deirolas e muitas flores. Conjuntos de msica country revezavam-se no palco erguido no centro da praa principal, mantendo a alegria e a animao.
Reprteres de diversos jornais e emissoras de tev aglomeravam-se nas proximidades do terreno, vizinho  casa de Lena, doado por Adam para a construo do hospital. A inaugurao da pedra fundamental do Hospital Arco-ris, o primeiro de Felicity, marcaria o incio da festa.
Depois de proferir um breve discurso, Ivan passou a palavra a ris, que abriu oficialmente a solenidade, sob uma verdadeira avalanche de flashes e aplausos.
Dali, ela se dirigiu  casa de Lena, que a aguardava para ajud-la a vestir o traje de A Noiva do Arco-ris.
Uma charrete, puxada por dois belos cavalos appaloosa, conduziu ris pela cidade, num desfile que inclua carroes, carretas e outros meios de transporte usados no final do sculo passado.
Um helicptero pousou prximo  entrada da cidade. Dele saram as maiores autoridades do Estado de Nevada. Caminhando sob o sol inclemente, saudavam os moradores e visitantes. Depois, ocuparam o lugar que lhes era destinado no palco.
Discursos proferidos, bandeiras hasteadas, aplausos... Tudo isso acontecia enquanto a charrete que conduzia ris se aproximava do palco pela rua central de Felicity.
Os turistas comoviam-se com a beleza de A Noiva do Arco-ris, em seu vestido imponente, seu vu multicolorido. Palmas, gritos de entusiasmo e assovios seguiam a marcha do desfile, at o local onde as autoridades esperavam.
A cinquenta metros do palco, a charrete foi interceptada por um homem montando um cavalo branco. Ele estava elegantemente vestido, como um personagem dos tempos antigos. A prata e o ouro reluziam em suas vestes, bem como nos arreios da montaria. Um grande chapu cobria parcialmente as feies do homem, que estendendo um brao em direo a ris, puxou-a para si e colocou-a na sela, a sua frente.
O gesto, simblico, evocava Wynne Rowland, levando sua amada ris Merlin para a cerimnia de casamento.
	Adam...  ela murmurou, comovida  onde arranjou esse bigode?
	Lena... Quem mais poderia ser?  ele disse, embaraado.  Ficou ridculo, no?
	De maneira alguma. Cai muito bem em voc.
Ele fitou-a com ternura, antes de dizer:
	Voc ficou linda, nesse traje de noiva. Eu estava com saudade, sabe?
ris ia responder, mas no foi possvel. Ambos j haviam chegado ao palco. Saltando da sela para o cho, Adam tomou-a nos braos e conduziu-a pela escada. Ento colocou-a, de p, diante das autoridades.
Para espanto de ris, o juiz era Gore Meredith. E, as testemunhas, grandes personalidades da poltica Estadual. O padre, que ela no conhecia, tanto podia ser de verdade, como um ator vestido a carter.
A cerimnia comeou, seguindo as tradies antigas, que Gore Meredith sabia to bem valorizar, em meio a tiradas de bom humor. O pblico sorria, satisfeito. E o velho juiz estava muito  vontade, em seus trajes de princpio do sculo.
A gargantilha de A Noiva do Arco-ris, confeccionada em ouro, prata e pedras preciosas, foi apresentada ao pblico por Adam. Sob aplausos e assovios, ele colocou-a no pescoo de ris, repetindo o mesmo gesto que Wynne Rowland fizera, h tanto tempo.
O juiz Gore Meredith dava prosseguimento  cerimnia. ris sentiu que poderia facilmente enganar-se, aceitando aquela fantasia como realidade. Seu sonho de casar-se com Adam acontecia, sim, mas num plano s permitido pela imaginao, ela pensou, com amarga ironia.
Quando o padre perguntou a ris Merlin se aceitava Adam Freemont como marido, para am-lo e respeit-lo, na sade e na doena, na alegria e na tristeza, at que a morte os separasse, ela apenas disse:
Sim.
A realidade se confundia com o sonho. Quando a pergunta foi feita a Adam, ele no vacilou. Emocionado, repetiu as palavras do padre:
	Aceito ris Merlin como minha legtima esposa, para am-la e respeit-la na sade e na doena, na alegria e na tristeza, at que a morte nos separe.
E ento veio o beijo, longo o suficiente para desmentir a farsa... Era real demais, para parecer uma encenao.
Depois, o juiz pediu que os noivos assinassem o livro de registros de casamento.
Voc primeiro, Adam.
ris o observou enquanto assinava. E ento tocou-lhe o brao, surpresa:
	Ei, voc est assinando seu prprio nome, no lugar de Wynne Rowland  cochichou.
	Eu sei.  Adam sorria, fitando-a no fundo dos olhos.  J voc no ter esse problema, pois seu nome  idntico ao de sua bisav.
Deixe de brincadeira  ela o censurou, baixinho.
Tomando-lhe o rosto entre as mos, Adam retrucou:
	Escute ris, no vamos confundir as coisas. A partir deste momento, a fantasia est fora desse palco... Entendeu?
	No  ela respondeu, confusa.
	As testemunhas, o padre e o juiz so verdadeiros... Bem como nossa assinatura, no livro de registros. Se quiser desistir do nosso casamento, ainda est em tempo. Seno...
E para valer, ris  o juiz interveio, com um sorriso.
Uma onda de emoo tomou conta de ris e sua mo tremeu, ao assinar o livro.
	Pelos poderes a mim delegados pelo Estado de Nevada, eu os declaro marido e mulher  Gore Meredith sentenciou.
A msica soou, saudando o casamento.
Num movimento gil, Adam tomou ris nos braos e, descendo as escadas, colocou-a na sela do belo alazo. Ento montou e, cumprimentando a todos com o chapu, no estilo dos antigos pioneiros, disparou em direo ao deserto.
	Para onde estamos indo?  ris perguntou, aninhando-se contra o peito de Adam.
	No sei. Isso tem alguma importncia?
Ela levantou o rosto, para receber um beijo pleno de amor.
	No  respondeu, quase sem flego.  No tem importncia nenhuma.

FIM

